Religião
e Espiritismo



Francisco Curado Teixeira

ETIMOLOGIA

A etimologia da palavra Religião é discutível.  A maior parte dos antigos (Lactancio, St. Agostinho, Servius) fazem derivar religio de religare e vem aí a idéia duma ligação: quer  uma  ligação de obrigação face a certas praticas, quer uma ligação de união entre os homens, ou entre os homens e os deuses. Por outro  lado,  Cícero faz derivar  a palavra de relegere, no  sentido de reler, rever com cuidado. Esta explicação é considerada artificial e forçada; crê-se contudo hoje, e duma maneira geral, que religio se liga a relegere, mas não no sentido que Cícero dava a esta palavra. Houve, sem dúvida, dois  verbos  desta forma: num  're'   tem  um  valor de repetição; relego  significa  então "ler de novo, ler varias vezes",  ou ainda "percorrer de novo"  (um caminho, um pais). No outro, 're' significa reunião,  aproximação: relego,  ou  talvez  religo,  queria dizer então "recolher, reunir".  Este segundo relego opõe-se na  forma a neglego ou negligo; as  citações  de alguns autores parecem  indicar que relego, que se opõe na sua forma  a neglego  ou  negligo, poderá também opor-se-lhe pelo sentido, significando a mesma coisa  que colere: "ter cuidado,  ter  deferência ou respeito por alguma coisa".

Religio parece ser duma  maneira geral, em latim, o sentimento constituído por medo e escrúpulo, por obrigação para com os Deuses.

Actualmente a  palavra  religião exprime três idéias: 1. a duma afirmação ou dum conjunto de afirmações especulativas;  2. a de um conjunto de actos rituais; 3. duma relação directa e   moral da alma humana com Deus, oscilando esta ultima idéia conforma a importância das outras duas, por vezes recalcada por elas até quase desaparecer, outras vezes, pelo contrário, libertando-se a ponto de se isolar quase completamente.

DEFINICÕES

Religião: A. Instituição social caracterizada pela existência duma comunidade de indivíduos unidos: 1. pelo cumprimento de certos ritos regulares e pela adopcão de certas fórmulas; 2. pela crença  num valor absoluto, com o qual nada pode ser comparado, crença  que esta comunidade tem por objecto manter; 3. pela relação do indivíduo com um poder espiritual superior ao homem, poder concebido quer como difuso, quer, finalmente, como  único, Deus.  B. Sistema individual de sentimentos, de crenças e de accões habituais tendo Deus como objecto. (...)  C. Respeito escrupuloso duma  regra, dum costume, dum sentimento. (...)  Este sentido  que é provavelmente o mais antigo, foi outrora muito mais usual do que hoje. (...)

Conservou-se mais no advérbio religiosamente, muito empregue neste sentido, mesmo na   linguagem familiar. Critica - Os sentidos A e B,  acima  distinguidos  para comodidade de análise e mesmo o sentido C, estão quase sempre reunidos no uso actual da palavra Religião; existe apenas, consoante os  casos, predominância do primeiro ou do segundo.

Podemos agrupar as diferentes concepções de religião em duas correntes fundamentais: uma corrente que opta por uma definição funcional da Religião e outra que opta por uma definição substantiva.
Na  linha da primeira, temos a definição de religião, do ponto de vista sociológico, segundo   DURKHEIM que pode ser resumida na seguinte fórmula: "Uma religião é um sistema  solidário de crenças e práticas relativas a coisas sagradas, quer dizer, separadas, interditas, crenças e práticas que unem numa mesma comunidade moral, chamada Igreja, todos os que   a ela aderem. "Na linha de uma definição substantiva, outros autores, sem ignorar a sua  função social, insistem no caracter relacional da Religião com o absoluto. É o que acontece, designadamente, com R. Otto e Mircea Eliade. Otto identifica no sagrado o verdadeiro centro da experiência religiosa. O sagrado visto, antes de mais, como uma categoria de interpretação absolutamente sui generis, como dado originário e fundamental, irredutível a qualquer definição, completamente inacessível à  compreensão conceptual e, como tal, inefável.

Segundo Otto, é pelo sagrado que se explicam todas as religiões. BRUNETIERE dizia:  "Não existe,  em bom francês ... Religião sem sobrenatural. Não são apenas noções conexas, são expressões sinônimas. Pode tentar desligar a Religião do sobrenatural que a funda... mas então já não é Religião; é outra coisa, que é necessário,  por conseguinte,  chamar com outro nome."

O que constitui de facto a essência da religião, é a distinção de duas maneiras de ser, de dois mundos radicalmente diferentes um do outro, mais exactamente e a crença numa ordem superior de coisas. Este parece ser também o parecer de R. EUCKEN, quando  diz  que o que é essencial e indispensável à religião sob todas as suas formas "é opor ao mundo que nos rodeia primeiro, uma outra espécie de existência, uma nova ordem de coisas superior, dividir a realidade total em diferentes  reinos  e diferentes mundos. Sem  a  fé  em   Deus, pode haver  religião,  como  o mostra o budismo antigo e autêntico: sem a dualidade dos mundos, sem perspectivas sobre uma nova espécie de ser, ela não é mais do que  uma palavra vã."

DISCUSSÃO

Do que atrás foi exposto parece concluir-se que Religião exprime a idéia de uma relação com o sobrenatural consubstanciada num conjunto de actos  rituais, num sistema de sentimentos, crenças e acções habituais tendo, ou não, Deus como objecto. Se esta relação  é de temor, como a etimologia da palavra sugere, ou não, tal dependerá essencialmente da interpretação mais ou menos  evoluída que os crentes fazem da sua religião. Esta diferente  gradação de sentimentos em relação ao sobrenatural pode ser hoje observada mesmo em religiões tradicionais como o catolicismo. O que a religião parece não dispensar é essa crença no sobrenatural, a divisão da realidade em reinos de natureza diferente, tal como o sugere EUCKEN.  É sobretudo aqui que o Espiritismo tem que se dissociar do conceito de religião. Porque, para o Espiritismo, a distinção entre natural e sobrenatural não tem mais sentido. Mas não é só a noção de sobrenatural que nos impede de considerar o Espiritismo uma religião, é também a existência nas religiões, de um conjunto de rituais,  de  práticas  relativas a coisas sagradas, como expõe DURKHEIM. Na realidade, esta  prática ritual, a deferência  pelas coisas sagradas, não se desvaneceu nem mesmo nas alas mais progressistas das religiões modernas. Ora em Espiritismo o conceito de sagrado esvaziou-se   do seu tradicional conteúdo (significando relativo ao culto religioso, consagrado, santo, santificado, ...). Penso que, independentemente das definições possíveis de religião que são sempre discutíveis, devemos sobretudo ter em conta aquilo que hoje se entende de maneira geral por religião, ou seja aquilo que o homem comum assume como sendo o significado do termo, porque este é que será, na realidade, o seu significado prático. É aqui que podemos  dizer, adaptando a afirmação de BRUNETIERE, que não existe em bom português religião sem sobrenatural - não são apenas noções conexas, são expressões  sinônimas. É esta noção que se deve ter em conta quando, nos  nossos  dias e na nossa realidade social, se coloca a hipótese de considerar que o Espiritismo é uma religião.

Referências:

1. André Lalande. Vocabulário de Filosofia -  Técnico e Crítico.  Presses  Universitaires  de  France.  Edição em língua portuguesa: RES-Editora, Lda.

2. Logos - revista de  Filosofia. Verbo Editora .

3. Enciclopédia Luso Brasileira. 4. Mircea  Eliade.  Tratado de História das Religiões. 1970.

 (Artigo publicado no Boletim do GEAE Ano 05 - Numero 232 - 1997 e reproduzido com autorização do autor)