Positivismo e Espiritismo

Rogério Coelho

 
“Crucifiquem Jesus, libertem Barrabás”
Lucas, 23:18.


Não poucas escolas filosóficas nascem, atingem rápido apogeu e, tal como surgiram, desaparecem por faltar-lhes bases firmes onde possam cimentar suas teses. Se permanecem ainda alguns resquícios, com o tempo se esboroam... Tal aconteceu com o Positivismo, doutrina de Auguste Comte, que, em seu zênite seduziu muita gente, causando – digamos – uma espécie de ebulição intelectual, cuja “fervura” não se sustentou por faltar-lhe o “fogo sagrado” da Verdade.

Lembra-nos o saudoso Deolindo Amorim1:

“(...) O Positivismo tem por lema: o Amor, a Ordem e o Progresso. Tão grande e sadia foi a influência do Positivismo no Brasil, que a Bandeira brasileira conserva até hoje a bela e significativa inscrição: Ordem e Progresso.

O Positivismo diz que os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos; o Espiritismo afirma este princípio, de outro modo, e também esposa a trilogia: Amor, Ordem e Progresso. Mas, seria cabível concluir que o Espiritismo e o Positivismo são a mesma coisa? Não.

Os conceitos, na forma, são idênticos, mas as concepções filosóficas divergem fundamentalmente. Segundo a filosofia espírita2, apoiada, aliás, sobre o testemunho das provas experimentais, os chamados mortos têm influência, diretamente, sobre os vivos. O Espiritismo defende, portanto, a tese da imortalidade individual, isto é, a imortalidade objetiva e não apenas teórica; quando, porém, o Positivismo preceitua que “os vivos são governados pelos mortos”, não se refere à sobrevivência do Espírito nem quer dizer, com este asserto, que os Espíritos desencarnados, como nós entendemos, venham entrar em relações com o homem. A noção positivista de Imortalidade é puramente subjetiva, porque apenas preconiza o culto dos mortos pelo exemplo, na lembrança dos vivos: os grandes homens, os benfeitores da Humanidade (Aristóteles, Arquimedes, Pasteur, por exemplo) continuaram influindo nos destinos humanos pelas suas obras, pela memória que deles fica, em cada geração que se sucede. A Imortalidade histórica, não é a Imortalidade individual. Para o Positivismo, o problema da Imortalidade do Espírito ou da Vida futura pertence à metafísica e, portanto, não deve entrar nas cogitações da inteligência humana. Já se vê que é muito diferente a concepção Espírita. Seria impossível confundir Espiritismo e Positivismo, apesar de haver conceitos e sentenças que se adaptam, ao mesmo tempo, tanto a esta co­mo àquela doutrina, conquanto sejam enunciados com objetivos diferentes".

Estabelecendo um paralelo entre o Positivismo e o Espiritismo, o nosso mui querido Dr. Bezerra de Menezes, sob o pseudônimo de “Max”, publicou o seguinte texto no jornal de seu tempo “O Paiz”, em sua coluna: Espiritismo, Estudos Filosóficos3:

“(...) Aproveitando o progresso realizado pela Doutrina de Jesus, Auguste Comte construiu, por orgulho e por ambição, uma doutrina oposta à d`Ele, que poderá seduzir pelo brilho, mas, em sua essência não tem por onde resistir à uma análise racional, conscienciosa; uma doutrina que só tem valor pela moral, que não é especial, que é toda copiada, com retoques sem importância, da moral de Jesus; uma doutrina cuja parte filosófica, para prova de sua debilidade, se firma sobre este princípio: “Só aceitar o que é materialmente provado!"

Vê-se, por aí, que muito propositadamente tal doutrina repelia de seu campo de estudos a idéia de Deus, da alma, de todos os fenômenos, em suma, do mundo espiritual, os quais, de nenhum modo, podem ser apreciados, na opinião corrente do chefe e dos sectários do positivismo, pelos seus processos e aparelhos, apenas sensíveis aos fenômenos materiais.

Que qualidades pessoais, conferentes com a própria moral, exibiu Auguste Comte, comparáveis com as de Jesus? Que benefícios têm produzido à Humanidade a Doutrina positivista em absoluto, e principalmente, com relação à de Jesus? Comte, diante de Jesus, é o orgulho humano, diante da Humanidade angélica; é ambição pessoal, diante da abnegação até o sacrifício da Vida!

O positivismo, diante da pura Doutrina de Jesus, é tão só a pretensão exagerada, diante da Verdade atestada por 21 séculos de provas espalhadas por todo o mundo.

Tudo o que aí fica exposto está tão gravado na consciência universal que só um cego fanatismo ou o Espírito de sistema poderão contestar.

Se Deus existe, apesar de não ter a honra de ser reconhecido pelos positivistas, e se a Doutrina de Jesus é emanada de Seu infinito amor pela Humanidade, como o crê a universalidade das pessoas e o revela seu caráter de indestrutibilidade o que será de uma nação que preferir em vez da Doutrina de Comte, a Doutrina de Jesus?

Tomando o chefe do positivismo por patrono, ela tem a certeza de que toma um homem como qualquer outro, com todas as fraquezas e falibilidades humanas.

Tomando por guia e protetor a Jesus, ela não pode deixar de ficar, pelo menos, na dúvida de ter por si um homem ou um ministro do Senhor, e em todo o caso um homem muito superior a Comte, um homem a quem o mundo deve todos os benefícios que hoje possui.

Naquela dúvida, pois, que vai de encontro à opinião dos povos, quem, com juízo reto, preferirá ao superior o inferior?"


Podemos avançar ainda mais, entrando no campo específico dos arraiais espiritistas: Temos testemunhado algumas não poucas defecções em nossas fileiras... Em sã consciência, uma criatura que se diz conhecedora do Espiritismo, mas que ainda sente a “saudade do altar”, ou que O abandona por outro “ismo” qualquer, assemelha-se, sem dúvida aos hebreus que entre Jesus e Barrabás optaram pelo último. Aquele povo está pagando até hoje em ruínas, desastres e desolações o alto preço de sua opção equivocada.

Há que se generalizar a piedade para com todos os que vamos ficando pelo caminho, seduzidos sabe-se lá pelo que, vez que teremos que pagar o preço da desídia; preço esse nada barato, pois Jesus disse que aquele que muito recebeu, dele muito será exigido.

Oremos por todos nós...
 
 
1 - AMORIM, D. O Espiritismo e as Doutrinas Espiritualistas. ed. CELD, cap. III.

2 - KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. 70.ed.feb, questão número 459.
3 - MENEZES, B. Espiritismo, Estudos Filosóficos. ed.FAE, Vol III, cap. 19

Artigo publicado originalmente no jornal "O Clarim" em fevereiro de 2006 e reproduzido com autorização do autor