Bem-aventurados os
Pobres de Espírito


 

ESE, Capítulo VII

 

Estudo apresentado na Sociedade Espírita Irmão Francisco de Assis, Duas Barras, RJ, em
16 de abril de 2005

 

Renato Costa

 
Recordações

No poético e magnífico manual de vida que o Mestre nos legou, chamado pela tradição de “O Sermão da Montanha”, lembramos ter lido que, no elenco das bem-aventuranças, Jesus nos ensinou:

“Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”

Acreditando estar ouvindo tal afirmação vinda de Jesus, nosso entendimento atual fica, de imediato, confuso. Sem aceitar a primeira impressão que ela nos dá, recorremos ao Aurélio e, no verbete próprio, lemos a seguinte definição para a expressão “pobre de espírito”:

Pobre de espírito. Pessoa simplória, ingênua, parva, tola.

“O que é isso?”, nos perguntamos, surpresos.? É evidente, para nós, que o Mestre dos Mestres não estaria a dizer que o Reino dos Céus pertence aos parvos, aos tolos ou ingênuos. Somos espíritas e, como tal, nada deve ser aceito por nós como chega aos nossos sentidos, sem que antes analisemos a informação percebida usando da razão e do bom-senso. Desse modo, se a informação que nos chega nos parece absurda, cabe a nós investigarmos mais aprofundadamente a questão até que o sentido se faça. Façamo-lo, pois, sem mais delongas..
 
O que diz a Codificação
 
O Capítulo VII de O Evangelho Segundo o Espiritismo leva o título que demos ao nosso estudo, isto é, “Bem-aventurados os pobres de espírito”.

Como era de se esperar, dados a lógica impecável e o bom-senso lapidar do Consolador, ele abre o capítulo com o tema “O que se deve entender por pobres de espírito”, iniciando seus comentários com as seguintes sábias palavras:

“A incredulidade zombou desta máxima: Bem-aventurados os pobres de espírito, como tem zombado de muitas outras coisas que não compreende. Por pobres de espírito Jesus não entende os baldos de inteligência, mas os humildes, tanto que diz ser para estes o reino dos céus e não para os orgulhosos”.

e os concluindo com estas, não menos sábias:

“Dizendo que o reino dos céus é dos simples, quis Jesus significar que a ninguém é concedida entrada nesse reino, sem a simplicidade de coração e humildade de espírito; que o ignorante possuidor dessas qualidades será preferido ao sábio que mais crê em si do que em Deus. Em todas as  circunstâncias, Jesus põe a humildade na categoria das virtudes que aproximam de Deus e o orgulho entre os vícios que dele afastam a criatura, e  isso por uma razão muito natural: a de ser a humildade um ato de submissão a Deus, ao passo que o orgulho é a revolta contra ele. Mais vale, pois, que o homem, para felicidade do seu futuro, seja pobre em espírito, conforme o entende o mundo, e rico em qualidades morais.”

A explicação de Kardec é clara e faz total sentido, dando às palavras de Jesus o caráter que se pode esperar delas. Fica, no entanto, a dúvida. Se Jesus quis se referir aos humildes de espírito e aos simples de coração, por que ele usou a expressão “pobres de espírito” e não outra mais adequada?

Mas ... será que Jesus usou mesmo a expressão “pobres de espírito”?

Para conferir se a expressão usada pelo Mestre foi mesmo “pobres de espírito”, consultamos três edições da Bíblia em Português e uma na sua versão em Francês. Vejamos o resultado de nossa consulta:

Recorremos, primeiramente, uma edição feita pela Enciclopédia Barsa de uma das Bíblias católicas mais utilizadas no Brasil, isto é, a tradução feita pelo padre Antônio Pereira de Figueiredo no século XVIII, com base na Vulgata Latina, tradução feita por Jerônimo no Século V. A outra tradução mais usada no Brasil é aquela feita pelo Padre Matos Soares, em 1930, igualmente a partir da Vulgata latina.

Como veremos abaixo, a fala de Jesus aparece transcrita nas traduções da Vulgata de forma idêntica a como aparece em O Evangelho Segundo o Espiritismo. Essa constatação confirma o que era de se esperar, isto é, que a Bíblia em francês utilizada por Kardec era, também ela, uma tradução da Vulgata. Dizemos isso porque a comunidade católica, durante séculos, desde o Concílio de Trento, em 1546, até algum tempo após 1943, ano em que o Papa Pio XII liberou  oficialmente que novas traduções fossem feitas a partir dos originais, só tinha à sua disposição para consulta e estudo a Vulgata ou traduções da Vulgata para suas línguas nativas. E o que será que diz a Vulgata?

“Bem aventurados os pobres de espírito: porque deles é o reino dos céus”

Jesus (Mt: 5.3)

A expressão “pobres de espírito” foi traduzida para o português como para vários outros idiomas, tendo como base a tradução do grego existente na Vulgata latina, feita por Jerônimo, no final do século IV, quando os manuscritos originais hoje disponíveis, mais antigos e confiáveis, ainda não haviam sido encontrados. Divulgada por séculos em toda a comunidade católica como a única versão aceita pela Igreja, a Vulgata acabou imprimindo na memória dos milhões de Espíritos que reencarnaram nas comunidades católicas ao longo desse imenso período, a lembrança de Jesus ter dito que o reino dos céus seria herdado pelos pobres de espírito. Não é por outro motivo que muitos estudos atuais sobre o tema, mesmo em meios espíritas, costumam manter a tradução proveniente da Vulgata latina, ignorando ser ela tida pelos estudiosos da Bíblia como das menos confiáveis.

A segunda Bíblia que consultamos foi uma edição em português, pela Editora Ave Maria, da tradução feita pelos Monges de Mardesous. Esta tradução foi feita para o francês a partir dos originais em hebraico e grego, tendo já contado com manuscritos descobertos mais recentemente. Foi publicada somente em 1957. Mais confiável, pelas razões expostas, que as traduções feitas a partir da Vulgata, veremos que ela  dá um significado compreensível às palavras de Jesus:

“Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é  o reino dos céus!”

Jesus (Mt: 5.3)

Quem tem um coração de pobre são os humildes. E que os humildes venham a herdar o reino dos céus faz sentido, apesar de ainda nos parecer uma afirmação um tanto vaga para ter vindo do Mestre dos mestres. Afinal, um pobre pode ter o coração humilde externado no seu comportamento social, mas pode, por outro lado, ser revoltado com sua situação e, desse modo, não possuir humildade moral.

A terceira Bíblia consultada foi uma edição digital da chamada edição revisada de Almeida. A tradução para o português iniciada por João Ferreira de Almeida no século XVII não seguiu à Vulgata, pois o autor se havia convertido à fé protestante, tendo ele e seus sucessores se baseado nos originais em aramaico e grego disponíveis então. A chamada “edição revisada de João Ferreira de Almeida”, publicada em 1967, seguiu os melhores manuscritos originais hoje conhecidos, gozando, assim, de boa consideração pelos estudiosos atuais. A transcrição dela é a seguinte:

“Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus”

Jesus (Mt: 5.3)

A expressão “humildes de espírito” nos parece precisa, pois o adjetivo humilde, como vimos, pode ser entendido como acanhado, tímido, mas, quando ouvimos falar em “humilde de espírito”, sabemos que estamos falando de uma qualidade moral e não de um aspecto comportamental.

A Bíblia de Jerusalém, preparada a partir dos anos da segunda guerra e que teve sua primeira versão brasileira publicada em 1981 pela Editora Paulina, foi por nós consultada em sua versão revisada, editada em francês em 1973. Diz ela:

“Felizes os pobres em espírito, pois o reino dos céus a eles pertence”

O pobre em espírito certamente é humilde pois se sabe necessitando de ajuda para crescer. Mais que isso, ele sabe que a ajuda que necessita é espiritual pois é nesse aspecto que está sua pobreza. Resta certo, portanto, que ele ora a Deus e aos bons Espíritos suplicando tal ajuda ao mesmo tempo em que se esforça para enriquecer seu espírito com as virtudes das quais se vê carente.

Vejamos, finalmente, o que nos ensina o Professor Pastorino em A Sabedoria do Evangelho:

“Uma variedade imensa de traduções tem sido dada às palavras de Mateus ptôchoi tôi pnéumati. Vamos analisá-las. O primeiro elemento, ptóchos, significa, exatamente, ”aquele que caminha humilde a mendigar". Sua construção normal com acusativo de relação poderia significar o que costumam dar as traduções correntes: "mendigos (pobres, humildes) no (quanto ao) espírito".

Acontece, porém, que aí aparece construído com dativo. à semelhança de tapeinoús tôi pnéumati (Salmo 34: 18), "submissos ao Espírito"; ou zéôn tôi pnéumati (At. 18:25), "fervorosos para com Espírito"; ou hagía kai tôi sôrnati kaì tôi pnéumati (1 Cor. 7:34), "santos tanto para o corpo, como para com o espírito".

Após havermos considerando numerosas traduções, aceitamos a que propôs José de Oiticica, MENDIGOS DE ESPIRITO, por ser mais conforme ao original grego, e por ser a mais lógica e racional: pois realmente são felizes aqueles que mendigam o Espírito; aqueles que, algemados ainda no cárcere da carne, buscam espiritualizar-se por todos os meios ao seu alcance, pedem, imploram, mendigam esse Espírito que neles reside, mas que tão oculto se acha.”

Humildes de espírito, hunldes em espírito ou mendigos de espírito são traduções que levam, em nossa opinião, ao mesmo entendimento, pois aquele que é humilde de espírito ou em espírito sabe-se no início da jornada e tem consciência da ajuda que precisa da Espiritualidade, a ela recorrendo com freqüência em suas preces.

O que Jesus quis nos ensinar, portanto, é que o reino dos céus, aquele estado que está no mais íntimo do nosso ser e que nós, no mais das vezes, desconhecemos, só será atingido pelos humildes que, com paciência e perseverança buscam as coisas do espírito, procurando, a cada dia, sem cessar, ser um pouco melhores que no dia anterior, aceitando as expiações e provações por que passam como lições a serem aprendidas, jamais se revoltando contra a vida ou contra Deus e constantemente orando à Espiritualidade Maior para que os ajude nessa empreitada.

Como podemos ver, mesmo com a tradução precária que Kardec tinha nas mãos, o Codificador soube, inspirado pela falange de Espíritos de escol, liderada por Jesus, utilizar a razão e o bom-senso para captar a verdadeira mensagem do Mestre.
 
Os Dois Caminhos da Humildade

Sabemos, da Codificação, que o Espírito necessita evoluir em Conhecimento e Bondade para alcançar a perfeição.

A evolução predominante em uma das sendas evolutivas, com descaso pela outra, causa distorção, não sendo dela que estamos falando. Espíritos que evoluem em conhecimento, negligenciando a bondade, revelam-se como os grandes líderes das trevas que tanto mal fazem à humanidade antes de se darem conta de sua distorção evolutiva e tomarem o caminho do bem. Espíritos que ignoram a necessidade de conhecimento, julgando que, para evoluírem, só precisam ser bons, ignoram oportunidades preciosas de praticar o bem por serem incapazes de identificá-las, devido à sua falta de conhecimento, até que, frustrados pelo pouco que logram realizar, aceitam instruir-se, compreendendo que o conhecimento é necessário para melhor praticar a bondade para com o próximo.

Por outro lado, é de se esperar que, aquele que evoluiu notadamente em conhecimento, mas sem deixar de evoluir em bondade, demonstre a mesma humildade que aquele outro que tenha evoluído de forma destacada na senda da bondade, tampouco deixando de evoluir em conhecimento. Vejamos se é assim que acontece.

A Humildade na Senda do Conhecimento

Sócrates, o grande pensador grego da antiguidade, nos legou o ensinamento:

“O sábio é aquele que sabe que nada sabe”.

A humildade é uma característica de quem estuda muito, pois aquele que estuda pouco e fica satisfeito, o faz por julgar que tudo sabe, ao passo que quem deseja realmente entender um campo do saber, jamais para de estudá-lo por perceber que, quanto mais o estuda, mais se lhe abre a compreensão do quanto ainda falta estudar.

Isaac Newton é considerado o Pai da Física Moderna. Incluído pela história entre os grandes Gênios da Humanidade, quando, uma vez, o cobriam de elogios pela sua obra, ele afirmou:

“Se pude ver mais longe é porque me ergui sobre os ombros de gigantes.”

A humildade refletida por essa frase de Newton está no entendimento de que ninguém, sozinho, descobre coisa alguma, inventa nada, cria o que quer que seja. Toda conquista do saber humano é uma obra coletiva, uns partindo de onde outros pararam e parando onde outros irão começar.

Albert Einstein, inquestionavelmente, o maior gênio do século XX, era, segundo aqueles que o conheceram, totalmente imune a louvores, ofensas, sucessos ou fracassos. Nada disso, que tanto abala a maioria dos homens, tinha significado algum para o seu estado emocional.

A humildade de Einstein nos ensina que devemos nos manter imperturbáveis quando em busca do saber, conscientes de que, sempre que erramos, poderemos, mais tarde, reparar o erro e ir e frente e que, sempre que nos elogiam ou nos ofendem, isso em nada irá alterar para melhor ou para pior nossas chances de obter sucesso se nos dedicarmos a tal.

Em seu exemplar de 12 de dezembro de 2004, o periódico americano “The New York Times” trouxe a público uma entrevista com o Professor Stephen Hawking. Nessa entrevista, uma pergunta feita ao notável físico inglês merece especial atenção para o proveito de nosso estudo.

“Como podemos saber se o senhor se qualifica como um físico genial, como invariavelmente o descrevem?”, perguntou a entrevistadora.

Ao que o Prof. Hawking respondeu:

“A mídia tem necessidade de super-heróis na ciência, como em todas as esferas da vida, mas o que existe, na verdade, é uma faixa contínua de habilidades, sem qualquer linha divisória clara.”

Aqui, vemos outro aspecto da humildade na senda do conhecimento. Não existem gênios, pessoas medianas e indivíduos parvos. A estratificação da raça humana em classes é necessária para nossa melhor compreensão, mas não corresponde à realidade. Uma faixa contínua de habilidades, sim. Com humildade devemos perceber que, se somos muito bons em uma área do conhecimento, nada sabemos de uma outra que, por certo, é dominada por outra pessoa. Logo, nem nós nem a outra pessoa somos gênios, apenas pontos discretos num imenso mapa de saber onde se espalha toda a humanidade.

A Humildade na Senda da Bondade

Uma vez, orando fervorosamente defronte a um crucifixo na velha capela abandonada de São Damião, na cidade de Assis, Francisco ouviu a exortação de Jesus:

“Francisco, não vês que a minha casa está em ruínas? Restaurá-a para mim!”.

Em sua humildade, aquele grande Espírito pensou que o Mestre se referia à capela abandonada onde ele estava a orar e, de pronto, com suas próprias mãos, começou a restaurá-la. Na verdade, Jesus se referia à Igreja como instituição, convertida que se tinha em uma sociedade política e militar, tendo abandonado por completo os ensinamentos que Ele nos havia trazido. Ao longo dos anos seguintes, Francisco se engajou de corpo e alma na tarefa de trazer essa Igreja de volta ao rumo certo. Mas o fez desposando-se da pobreza, sempre humilde, sabendo ser a cada instante, como Jesus nos havia ensinado:

“... aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos”.

A Humildade Conquistada em Um e no Outro Caminho São Excludentes?

A separação que fizemos entre a humildade conquistada no caminho do conhecimento e aquela conquistada no caminho da bondade tem o propósito, exclusivamente, didático. Ë inconcebível que um Espírito de grande adiantamento intelectual, que tenha chegado ao estágio de ser humilde em relação ao seu conhecimento, se ufane de atos de bondade que porventura pratique. Do mesmo modo, é impensável que um Espírito seja capaz de um imenso amor pelo semelhante  sem disto se jactar e, ao mesmo tempo, se envaideça do seu conhecimento em alguma área do saber.

A corroborar o que acabamos de dizer, veremos, analisando os homens da ciência citados mais acima, que os três demonstraram evolução moral e entendimento das questões espirituais, ingredientes suficientes para os sabermos humildes na senda da bondade.

Segundo registra a história, Newton, na fase mais criativa de sua produção científica, teve sua atenção voltada para as questões espirituais. Rejeitando os ensinamentos religiosos de então, pesquisou obras teológicas antigas e a alquimia em busca de uma exegese bíblica que fizesse sentido para o seu gênio inquiridor. Tornou-se um unitariano, reedição inglesa do século XVIII do arianismo, doutrina que negava a Trindade, pregando a unicidade de Deus, e que havia sido condenada pelo Concílio de Nicéia, no ano de 325. Como podemos ver, Newton tinha preocupações de ordem espiritual. Ao longo de sua vida, ele fez o melhor que pode para conciliar seu conhecimento científico com o entendimento das coisas espirituais, para tanto indo buscar, na sabedoria antiga, valores que a religião dita do Cristo há muito havia abandonado.

Einstein procurou Deus na natureza que, com tanto amor, ele estudou. Para ele, Deus se expressava na natureza através de suas leis. Einstein acreditava em Deus como a alma do Universo, sendo, por isso, julgado ateu por muitos de seus contemporâneos, acostumados ao deus pessoal que cuida de cada uma de nossas necessidades pessoais. Quão próximo é esse entendimento de Einstein daquele expresso pela resposta à primeira questão de O Livro dos Espíritos!

Uma frase magistral de Einstein precisa ser analisada neste estudo. Disse ele uma vez: “Deus resiste aos soberbos mas dá Sua graça aos humildes.” Quanta sabedoria nessa frase!  A experiência pessoal de cada um de nós já nos deve ter mostrado que, quando nos ensoberbamos, julgando que o sucesso nos será certo, devido à nossa capacidade intelectual e dedicação, ele nos escapa, enquanto que, nas ocasiões em que nos fizemos humildes e, além de darmos tudo de nós, oramos pela ajuda divina, o sucesso nos vem sem demora.

Na mesma entrevista citada mais acima, a repórter do New York Times perguntou a Stephen Hawkin:

Você acredita em Deus?

Ao que Stephen Hawking respondeu:

Eu não acredito em um Deus pessoal.

O Prof. Hawkin, como maioria dos cientistas, sobretudo os físicos, é um agnóstico. Isso não impede, no entanto, que quando ele pondera sobre Deus fora da sua atividade científica, ele o faça utilizando seu raciocínio e o faz, como se vê, negando a possibilidade de um Deus pessoal e mostrando, assim, estar em total sintonia com o entendimento espírita nessa questão. Afinal, como nos ensinaram os Espíritos, Deus é a Inteligência Suprema, Causa Primária de Todas as Coisas. Nada pode ser tão diferente de um Deus pessoal, não é mesmo?

Para quem tem dificuldade em ver o adiantamento moral do Professor Hawking, basta conhecer sua figura imóvel e contorcida, sentado em uma cadeira de rodas e falando através de um sintetizador de voz. Acometido de uma doença neurológica chamada de esclerose lateral amiotrópica, quando ainda na faculdade, Hawking conta em suas biografias que se sentiu feliz por ter escolhido física teórica como campo de estudo, o que não lhe requereria qualquer esforço físico. Sempre bem humorado e extremamente produtivo como pesquisador, Hawking é uma demonstração viva de que como é possível superar as limitações do corpo físico e ter uma vida plena, cumprindo a missão que se traz ao mundo.

Para melhor entendermos o porque de a humildade intelectual e a humildade moral estarem sempre juntas, é bom recorrermos a O Livro dos Espíritos. Na Questão 780, Kardec perguntou aos Espíritos:

780. O progresso moral acompanha sempre o progresso intelectual?

ao que os Espíritos responderam:

“Decorre deste, mas nem sempre o segue imediatamente.”

Continuou o Codificador:

a)        Como pode o progresso intelectual engendrar o progresso moral?

Tendo esclarecido os Espíritos:

“Fazendo compreensíveis o bem e o mal. O homem, desde então, pode escolher. O desenvolvimento do livre-arbítrio acompanha o da inteligência e aumenta a responsabilidade dos atos.”

Por último Kardec quis saber:

b)        Como é, nesse caso, que, muitas vezes, sucede serem os povos mais instruídos os mais pervertidos também?

Tendo os Espíritos respondido:

“O progresso completo constitui o objetivo. Os povos, porém, como os indivíduos, só passo a passo o atingem. Enquanto não se lhes haja desenvolvido o senso moral, pode mesmo acontecer que se sirvam da inteligência para a prática do mal. O moral e a inteligência são duas forças que só com o tempo chegam a equilibrar-se.”

Quem se revela humilde na senda do saber já avançou bastante moralmente para perseguir o progresso na senda da bondade e o faz com a humildade já conquistada.

A conquista da humildade é, portanto, o ponto de equilíbrio entre a inteligência e a moral.

 Jesus, Humilde em Espírito por Excelência

 Contam os evangelhos canônicos (Mc 10, 17 e Lu 18, 18) que, em dada ocasião, aproximou-se um jovem de Jesus e perguntou:

“Bom Mestre, o que é preciso que eu faça para adquirir a vida eterna?”

Ao que o Mestre respondeu:

“Por que me chamais bom? Só Deus é bom.”

Jesus foi o exemplo maior de humildade. De Si nunca disse nem mais nem menos do que realmente era.

Quando afirmou, conforme relata João, “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas” (Jo 14, 11) ou “Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim.” (Jo 14, 14), nada falava além da verdade que tão bem conhecemos. A quantos milhões de anos Jesus tem cuidado de nós, jamais abandonando a uma só de suas amadas ovelhas? Mais do que o sofrimento no Gólgota, é essa dedicação contínua por nós que mostra o quanto Jesus tem dado a vida por nós. E quem tem dúvida de que Jesus, ao longo desse tempo imenso, conhece a cada um de nós na mais profunda intimidade?

Quando Jesus disse “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida...” (Jo 14,6) , cada atributo desses reflete a mais pura verdade. Jesus é, de fato, o caminho, sendo por todos sabido que quem segue os Seus passos chegará mais cedo à perfeição. É, sem dúvida, a verdade, uma vez que nada que saiu de Sua boca jamais deixou de representar a verdade em sua mais pura essência. É, sem sombra de dúvida, a vida, a verdadeira vida, pois seu exemplo nos mostra como estar neste mundo sem a ele pertencer, como aproveitar ao máximo o nosso potencial de  “vivos”, no entender profundo do termo, representando aqueles que despertaram para o sentido da existência. Tudo o que Jesus disse de si foi exatamente o que Ele é, sem aumentar nem diminuir nada.

Espírito de imensa envergadura, responsável maior pelo nosso orbe e pela humanidade terrena, Jesus poderia ter escolhido nascer em berço de ouro, filho, talvez, do poderoso imperador romano. No entanto, preferiu nascer em um estábulo, na simplicidade de uma classe humilde e em uma nação dominada.

Questionado pelos poderosos da época quanto ao fato de se misturar com os excluídos, chamados de pecadores por aqueles que se julgavam sem culpa, o Mestre replicava “Os sãos não precisam de médicos e, sim, os doentes.” (Mt 9,12; Mc 2, 17 e Lu 5, 31). Quando queriam, ora endeusá-lo, ora condená-lo pelos notáveis prodígios que fazia, Ele apenas respondia que as obras que fazia era o Pai que fazia através d’Ele, exortando-nos a fazer obras iguais ou até maiores, como relata João (Jo 14, 12).

Toda a vida de Jesus entre nós foi uma aula de humildade. Jesus poderia ter sido rei na Terra, mas Ele não tinha vindo para isso. Poderia ter sido um grande rabino de seu tempo, o maior de todos, mas não era essa a missão a que se tinha proposto. Poderia ter sido um mago, respeitado e temido por todos, mas tal não era a sua natureza.

Quanto mais evoluído um Espírito menos ele valoriza seu estágio evolutivo diante dos homens, pois, ao evoluir, todos os sentimentos ligados ao ego vão sendo abandonados.

Aquele que se Eleva será Rebaixado

Tendo esclarecido o que o Mestre queria dizer por Pobres de Espírito no sermão das Bem-aventuranças, Kardec apresenta, na seqüência de O Evangelho Segundo o Espiritismo, três passagens, que abaixo transcrevemos, realçando a mensagem que devemos fixar:

Por essa ocasião, os discípulos se aproximaram de Jesus e lhe perguntaram:“Quem é o maior no reino dos céus?” - Jesus, chamando a si um menino, o colocou no meio deles e respondeu: “Digo-vos, em verdade, que, se não vos converterdes e tornardes quais crianças, não entrareis no reino dos céus. - Aquele, portanto, que se humilhar e se tornar pequeno como esta criança será o maior no reino dos céus - e aquele que recebe em meu nome a uma criança, tal como acabo de dizer, é a mim mesmo que recebe.” (Mateus, XVIII, 1 a 5.)

Então, a mãe dos filhos de Zebedeu se aproximou dele com seus dois filhos e o adorou, dando a entender que lhe queria pedir alguma coisa. - Disse-lhe ele: “Que queres?” “Manda, disse ela, que estes meus dois filhos tenham assento no teu reino, um à sua direita e o outro à sua esquerda.” - Mas, Jesus respondeu, “Não sabes o que pedes; podeis vós ambos beber o cálice que eu vou beber?” Eles responderam: Podemos.” - Jesus lhes replicou: “É certo que bebereis o cálice que eu beber; mas, pelo que respeita a vos sentardes à minha direita ou à minha esquerda, não me cabe a mim vo-lo conceder; isso será para aqueles a quem meu Pai o tem preparado.” - Ouvindo isso, os dez outros apóstolos se encheram de indignação contra os dois irmãos. - Jesus, chamando-os para perto de si, lhes disse: “Sabeis que os príncipes das nações as dominam e que os grandes os tratam com império. - Assim não deve ser entre vós; ao contrário, aquele que quiser tornar-se o maior, seja vosso servo; - e, aquele que quiser ser o primeiro entre vós seja vosso escravo; - do mesmo modo que o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de muitos.” (Mateus, XX, 20 a 28)

Jesus entrou em dia de sábado na casa de um dos principais fariseus para aí fazer a sua refeição. Os que lá estavam o observaram. - Então, notando que os convidados escolhiam os primeiros lugares, propôs-lhes uma parábola, dizendo: “Quando fordes convidados para bodas, não tomeis o primeiro lugar, para que não suceda que, havendo entre os convidados uma pessoa mais considerada do que vós, aquele que vos haja convidado venha a dizer-vos: dai o vosso lugar a este, e vos vejais constrangidos a ocupar, cheios de vergonha, o último lugar. - Quando fordes convidados, ide colocar-vos no último lugar, a fim de que, quando aquele que vos convidou chegar, vos diga: meu amigo, venha mais para cima. Isso então será para vós um motivo de glória, diante de todos os que estiverem convosco à mesa; - porquanto todo aquele que se eleva será rebaixado e todo aquele que se abaixa será elevado." (Lucas, XIV, 1 e 7 a 11.)

Como o reino dos céus não se encontra ali ou acolá, mas no mais íntimo de nós, ser grande no reino dos céus não significa uma posição de destaque em relação aos outros, um parâmetro com que possamos nos avaliar melhores ou maiores que alguma outra pessoa. Ser grande no reino dos céus é uma vitória íntima que relaciona, entre os inimigos derrotados, o orgulho, a vaidade, a inveja, o desdém e todos os sentimentos negativos que nos fazem avaliar os outros com base em nós mesmos e a nós mesmos com base nos demais.

A busca humilde do reino dos céus exige disciplina e força de vontade. Assim, a postura que assumimos diante dos outros deve ser objeto constante de nossa vigilância. A postura que temos em lugar público, em nosso lar ou no movimento espírita deve ser a de humilde servidor. Se isso nos é difícil assumir no íntimo, que, pelo menos, nos esforcemos para que tal seja nosso comportamento exterior. De tanto nos disciplinarmos para não externar emoções negativas, elas aos poucos vão desaparecendo do nosso psiquismo. Sim, porque a vaidade e o orgulho se alimentam de elogios, agradecimentos efusivos, comemorações. Quando não externamos vaidade, quando não deixamos transparecer o prazer que nos dão os elogios, as outras pessoas, aos poucos, deixam de nos louvar as qualidades e, em persistindo nossa determinação, com o tempo, nosso sentimento se vai modificando para melhor.

Podemos estar com o coração inflado de orgulho pelos nossos feitos, mas, já que nossos sentimentos se encontram camuflados em um corpo físico, saibamos usar dessa facilidade para não externarmos nossas emoções. Mantenhamos o rosto sereno perante elogios que se nos dirijam, evitando responder com agradecimentos efusivos ou contestações veementes, que, no fundo, somente realçam o que foi dito por aquele que nos enalteceu. Se, em qualquer ocasião formos elogiados, saibamos sorrir discretamente, fazer uma pequena mesura com a cabeça ou algum outro gesto sutil que demonstre educação, simpatia, mas não revele concordância com o que foi dito e deixe claro que a manifestação não nos perturbou.

Podemos nos considerar importantes pela nossa posição na sociedade, mas saibamos ser gentis e prestativos para com quem quer que seja, principalmente, porém, para com aqueles que a sociedade vê como párias, destituídos, estropiados. O adiantamento moral de um indivíduo não se revela em sua indumentária, na sua profissão ou na educação que possui. Sejamos servos de todos, dos que nos são superiores na vida social, dos que nos são subordinados e daqueles outros com que travamos contato ao longo da existência. Servir com humildade não é baixar a cabeça, estar todo o tempo a olhar para o chão, sentar sempre no canto mais escuro e frio de uma sala. Não, servir com humildade é manter a cabeça erguida, mas sem jamais olhar os outros de cima para baixo. Servir com humildade é olhar nos olhos de todos com serenidade, sejam eles os poderosos do mundo ou os mais humildes rejeitados e, ma medida de nossas possibilidades, tudo fazermos para ajudá-los em sua senda evolutiva. Servir com humildade é sentar, sempre que possível, perto de um irmão ou irmã que precise de nosso apoio, seja na forma de um ouvido amigo a escutar suas lamentações e a lhe aconselhar no que for possível, seja na de um companheiro silencioso, em prece compenetrada  enviando vibrações de amor para lhe acalmar a mente confusa.

Toda vez que prestarmos um serviço fraterno a quem quer que seja, se, no íntimo, nosso coração aceitar o agradecimento sincero da boca do beneficiado, que nossas palavras e a expressão de nosso rosto não traiam essa nossa fraqueza e saibamos, sabedores da vontade do Pai, retrucar com simplicidade: “somos nós que agradecemos pela oportunidade de sermos úteis”. Martelemos esse entendimento em nossa mente até que ela ali se fixe, pois ele reflete a mais pura realidade. Cada pessoa que, aparentemente, necessita de nossa ajuda, está, na realidade, a nos ajudar, pois é ajudando a quem necessita que resgatamos nossas dívidas para com a harmonia do Universo.

No movimento espírita não procuremos um lugar de honra. Quem fica na memória do povo não é aquele alto dirigente de grande instituição, mas, antes, o outro, humilde trabalhador da seara de Jesus. Não estamos falando em tese, estamos? Aprendamos com o passado para sabermos evitar a repetição de nossos erros. Lembremo-nos sempre do que Jesus nos ensinou:

“aquele que quiser tornar-se o maior, seja vosso servo; e,
aquele que quiser ser o primeiro entre vós seja vosso escravo”
 
Mistérios Ocultos aos Doutos e aos Prudentes

Disse, então, Jesus estas palavras: "Graças te rendo, meu Pai, Senhor do céu e da Terra, por haveres ocultado estas coisas aos doutos e aos prudentes e por as teres revelado aos simples e aos pequenos." (Mateus, XI, 25.)

Na seqüência de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec interpreta as palavras de Jesus na passagem acima transcrita, identificando os doutos e prudentes da fala do Mestre com os “orgulhosos, envaidecidos do seu saber mundano, os quais se julgam prudentes porque negam e tratam a Deus de igual para igual, quando não se recusam a admiti-lo, porquanto, na antigüidade, douto era sinônimo de sábio”.

Mais adiante, ele, também, associa aos doutos da fala de Jesus, os incrédulos, que exigem provas das propostas espíritas do modo que lhes convém, jamais descendo do pedestal a que se alçam para, humildemente, investigar os fatos e concluírem por eles mesmos o que não aceitam quando proveniente do raciocínio alheio. Julgam estarem corretos pelo fato de assunto de tal importância demandar prudência. Como se sermos prudentes significasse tudo fazermos segundo nossos critérios, tomando os mesmos como infalíveis e aplicáveis a quaisquer problemas.

Sejam, portanto, os que se recusam por completo a considerar as questões espíritas ou aqueles que apenas concedem considerá-las segundo seus critérios de análise, todos podem ser relacionados com os doutos e prudentes da fala do Mestre. Não é a verdade que se esconde deles mas antes eles que, não aceitando a verdade quando a mesma é proclamada por outros, tampouco procuram investigar o que é afirmado, em postura orgulhosa que lhes fecha os olhos ao saber.

No mundo atual ainda encontramos as duas espécies de posturas mencionadas. Entre os primeiros estão, por exemplo, os que se põem a provocar os espíritas perguntando o porque de não se demonstrar os fatos mediúnicos naTV. Por mais que se lhes explique que os Espíritos sérios não se prestam a espetáculos, convidando-os a investigar os fenômenos onde o mesmo habitualmente ocorre, fingem que nada ouvem, repisando cansativamente na mesma tecla. No segundo grupo vemos certos autoproclamados investigadores da parapsicologia, que montam experiências segundo suas próprias idéias com o intuito de provar que os fatos espíritas são uma fraude. Ora, mesmo em se aceitando que tais experiências sejam honestas, devemos ponderar quanto ao tipo de Espírito que se prestará a tais experiências. Serão Espíritos interessados na evolução humana?  Pelas conclusões a que tais pesquisadores chegam, acreditamos que não. Afinal, se levarmos ao pé da letra tais conclusões, tudo o que podemos aceitar como válido é matéria, algo que a própria ciência já aceita não corresponder à realidade.

Como pudemos ver em nosso estudo das duas sendas da humildade, os verdadeiros sábios são humildes. Então, que sábios são esses a quem a verdade é ocultada? Uma breve leitura da Escala Espírita nos fornece a resposta a essa indagação. Na Oitava Classe da Terceira Ordem (Espíritos Imperfeitos), encontramos:

Espíritos Pseudo-Sábios - Dispõem de conhecimentos bastante amplos, porém, crêem saber mais do que realmente sabem. Tendo realizado alguns progressos sob diversos pontos de vista, a linguagem deles aparenta um cunho de seriedade, de natureza a iludir com respeito às suas capacidades e luzes. Mas, em geral, isso não passa de reflexo dos preconceitos e idéias sistemáticas que nutriam na vida terrena. É uma mistura de algumas verdades com os erros mais polpudos, através dos quais penetram a presunção, o orgulho, o ciúme e a obstinação, de que ainda não puderam despir-se.

Bibliografia

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PASTORINO, Carlos Torres. A Sabedoria do Evangelho. Rio de Janeiro: Sabedoria, 1965.

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Versões da Bíblia. Obtido de http://www.pilb.hpg.ig.com.br/versoesBiblias.htm em 13 de março de 2005.