O Livro dos Espíritos

Octávio Caúmo Serrano

A cada 18 de abril, os espíritas recordam o ano de 1857 quando se deu o lançamento de O Livro dos Espíritos, a obra basilar do Espiritismo.

Mais tarde, ele seria complementado pelo Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese, formando o pentateuco espírita.

O primeiro Livro dos Espíritos, com duas colunas e cerca de 500 questões, foi revisado e ampliado e no lançamento da segunda edição, em 18 de março de 1860, saiu no formato atual com 1019 questões.
O Espiritismo ganhava um corpo de doutrina por meio da codificação sistematizada em O Livro dos Espíritos pelo professor francês Rivail que adotou o pseudônimo de Allan Kardec, desconhecido do público, a fim de que a obra fosse lida sem prévio julgamento, já que ele, professor Rivail, era nome conceituado entre os franceses, inclusive no mundo das letras.

Servindo-se de médiuns crianças de 14 a 17 anos, ele organizou e revisou toda a obra que havia sido iniciada por amigos que lhe forneceram uma coleção de perguntas e respostas obtidas nas reuniões das conhecidas mesas girantes que eram um divertimento para a sociedade parisiense da época.

Posteriormente, ele mesmo fez perguntas e incluiu no livro alguns comentários pessoais. Não deixou de inserir no início da obra um longo e bem elaborado prefácio que os espíritas devem ser atentamente para conhecer melhor o senso lógico do codificador o que nos dá ainda mais confiança na Doutrina Espírita.

Preocupado com a repercussão do livro entre o povo, foi às ruas, fez pequenas viagens pelo interior da França e Bélgica e constatou que as pessoas que o leram estavam mais corajosas. Passaram a ver o mundo de maneira diferente e as dificuldades passavam a ser aceitas com mais esperança.

Como curiosidade, damos abaixo o relato do editor do Courrier de Paris, logo em junho de 1857 após ler a primeira edição de O Livro dos Espíritos:

O jornal informa que havia sido publicada obra deveras notável, até mesmo curiosa, se não houvesse nela coisas interessantes que não poderiam ser consideradas banais: “O Livro dos Espíritos”, escreve, “é página nova no próprio grande livro do infinito e, estamos persuadidos, uma marca será posta nessa página”.

Declara o editor, sr. Du Chalard, que não conhece o autor, mas que alguém que escreveu tal prefácio deve ter a alma aberta a todos os sentimentos nobres. Afirma, ainda, que jamais fez qualquer estudo sobre fenômenos sobrenaturais, embora, vez que outra, se perguntasse o que haveria nas regiões onde se convencionou chamar “O Alto”.

O jornalista, impressionado com a obra, não tem dúvida em recomendá-la. “A todos os deserdados da Terra, a todos quantos marcham e que nas suas quedas regam com lágrimas o pó das estradas, diremos: Lede O Livro dos Espíritos; ele vos tornará mais fortes. Também aos felizes, que pelos caminhos só encontram aclamações e os sorrisos da fortuna, diremos: Estudai O Livro dos Espíritos e ele vos tornará melhores”.

Menciona que o trabalho é da autoria dos Espíritos, fala das sublimes respostas, mas enaltece as perguntas que as provocaram. Desafia os mais incrédulos a rirem quando lerem o livro em silêncio e solidão.

Após o comentário, propõe: “O senhor é homem de estudo e têm aquela boa fé que apenas necessita instruir-se? Então leia o Livro Primeiro, que fala sobre a Doutrina Espírita. É dos que se ocupam apenas consigo mesmo e nada enxergam além dos próprios interesses? Leia as Leis Morais. Todos os que têm pensamentos nobres de coração, leiam o livro da primeira à última página. Aos que encontrarem matéria para zombaria, o nosso lamento”.

No título, dissemos tratar-se de uma homenagem profética. Naquele instante, o jornalista vislumbrou a estrada de luz que se abria com as revelações e só alguém igualmente com grande sensibilidade poderia perceber a conotação divina que o livro apresentava.

Entre os espíritas, mesmo já tendo convivido com tais notícias há quase  cento e cinqüenta anos, encontramos poucos com as convicções do editor francês que, de pronto, percebeu a chegada do Consolador.

Como recado final, propomos aos espíritas que leiam mais O Livro dos Espíritos. Independente da pesquisa individual, sugerimos o estudo conjunto e permanente dessa obra, porque à medida que a estudamos mais faz sentido em nossas mentes, trazendo alento aos nossos corações. Essa é uma reunião de estudo que não pode faltar em nenhuma casa espírita.

Um dia chegará em que o mundo será divido, a exemplo de Jesus Cristo, em dois períodos absolutamente distintos: Antes e Depois do Espiritismo. Precisamos ajudar a popularizar a doutrina. Só ela acabará com abortos, eutanásias, crimes, seqüestros, vícios, porque só por meio dela o homem compreenderá que é o herdeiro de suas próprias ações, pelas quais sempre terá de responder, cedo ou tarde.

Agradecemos ao nosso Allan Kardec por nos doar, com tanta firmeza e desprendimento, o tesouro que os espíritos nos ofertaram. Deus o abençoe!


Artigo publicado na Tribuna Espírita, Paraíba, edição de Março/Abril de 2005 e reproduzido com autorização do autor