O Conceito de Solidariedade

Luiz Signates
  

A questão da solidariedade é extremamente atual. As sociedades contemporâneas, assentadas sobre os valores do capitalismo, estão em alta medida fundadas em sistemas de competição orientada a interesses. Essa experiência coletiva, que invade tanto as instituições sociais quanto os espaços privados do mundo da vida, constrói-se dentro de uma moral egoísta, na qual a presença dos outros só é reconhecida a partir dos benefícios concretos que possa gerar, o que implica, em contrapartida, uma forte indiferença em relação aos não produtivos e uma enorme e constante violência de uns contra os outros, especialmente os que não se adaptem às regras desse egoísmo social. Tal sentimento, contudo, não pode se generalizar sem criar um mal-estar social de largas proporções, vinculado não somente à falta do outro como igual, mas também ao stress da guerra permanente e, sobretudo, ao rastro de miséria e sofrimento que os egoístas em competição vão deixando atrás de si, na medida em que constróem suas riquezas materiais e suas situações de poder. O mundo atual é, pois, um mundo carente de solidariedade.

Este artigo pretende desenvolver uma análise concisa do conceito de solidariedade e de suas condições de validade (fundamentos de convivência social que caracterizam uma vivência solidária autêntica), analisando em seguida, rapidamente, o significado de tais condições para a prática espírita.


Os Diversos Nomes da Solidariedade

Na tradição cristã da religião, a vida solidária recebe o nome de fraternidade, idéia fundada pelos cristãos primitivos, sob a perspectiva de uma sociedade de irmãos, filhos do mesmo Deus, visto como Pai, conforme lhes ensinara Jesus. A sociedade de irmãos funda a igualdade na relação entre os seres desiguais, na medida em que os vincula a um propósito comum, assegurado pela crença no Deus único.

É no âmbito da sociologia que a expressão recebe o nome de solidariedade, para caracterizar os modelos descritivos e normativos de sociedades comunitárias, dentro das quais os bens são repartidos para o usufruto comum e as ações são coletivamente praticadas, em regime de cooperação mútua.

Mesmo no campo da política, é possível agregar, até certo ponto, a noção de solidariedade ao conceito de democracia, porquanto as sociedades democráticas pressupõem a predominância do interesse comum e da participação pública, que são formas coletivas de viabilização da solidariedade, para se realizarem enquanto tal. Existem, porém, limites a essa apropriação teórica, já que são também consideradas democráticas as sociedades políticas representativas, nas quais o "representante", ao agir em nome dos "representados", finge ocupar-lhes o lugar, de certa forma calando-os, ato que rompe, ao menos parcialmente, com a idéia de solidariedade (embora viabilize as formas complexas de organização social, às vezes impraticáveis tão somente pelas redes de solidariedade). Há quem afirme por isso que a crise atual da democracia representativa é, na verdade, uma crise de ausência da solidariedade real.

Há diferença entre a solidariedade, tratada como conceito base para explicar e propor uma ordem social, e uma outra, definida como forma estereotipada e casual de auxílio a outras pessoas. Talvez se possa afirmar que há a possibilidade de uma solidariedade permanente, funcionando como cimento social, e uma solidariedade instantânea, de consumo. Para os termos deste trabalho, consideramos como autêntico apenas o primeiro tipo, por oferecer condições para uma análise normativa da vivência social.

Dois conceitos fundamentam a noção de solidariedade neste trabalho: o outro e a comunicação. Definimos o outro como sendo a manifestação da diferença, da verdade que não se encontra no eu; e comunicação como o movimento que começa no outro e se efetua de forma a revelar as diferenças dele, sem que isso implique estabelecer guerras ou disputas visando eliminar tais diferenças. O estudo da solidariedade é, pois, essencialmente o estudo das condições de possibilidades e limites da interação social efetivamente comunicativa com os outros.

Condições de Validade do Gesto Solidário

Solidariedade de fato é mais do que prestar serviços ao outro: é um tipo especial de relacionamento social, que depende, para se efetivar, de algumas condições muito específicas cujo desempenho deve ser mútuo, caso contrário significará somente uma ação altruísta individual (o que não a desvaloriza, embora unilateralize o exercício da solidariedade, denotando uma ação, mas não propriamente uma interação social, porquanto a vida solidária demanda reciprocidade para existir). Ressaltamos abaixo o que consideramos ser as quatro condições essenciais para a ação solidária:

1. Não indiferença. O outro jamais é anulado ou cai no vazio da indiferença social. Ao contrário, sua presença constitui acontecimento relevante, diante do qual o eu se coloca de pé, pronto para a relação solidária.

2. Aceitação da diferença. O outro é reconhecido enquanto tal, e não submetido aos conceitos aprioristicamente construídos pelo eu. O elemento definidor da alteridade é, justamente, a estranheza, o desconhecimento e a infinitude do outro. Tal estranheza, em um contexto de solidariedade, poderá sempre ser manifesta, sem implicar em guerra entre os sujeitos em interação.

3. Doação/concessão/espera. O eu se faz sempre disponível a entregar-se, exercendo autonomamente uma heteronomia empática que, no entanto, não o torna escravo do outro nem elimina a identidade que lhe assegura essa autonomia. A empatia significa um deixar-se levar por exercício da própria vontade, em relação ao outro e às suas necessidades e carências.

4. Aprendizado/mudança. Ciente de que ninguém sai ileso de uma interação solidária, o eu se distingue pela disponibilidade para o aprendizado com o outro, na medida em que identifica no reconhecimento da diferença, enquanto lugar do desconhecido, o espaço do aprendizado possível e, portanto, da mudança.

Observe-se que a solidariedade, enquanto comunicação plena, se inicia não no eu, mas no outro. Isso não implica, entretanto, uma heteronomia, no sentido de perda da identidade do eu, diante do império avassalador da diferença alheia. De forma alguma. O gesto solidário é sobretudo um ato de autonomia, mas trata-se uma autonomia típica, que se faz responsável pelo outro, que escolhe o respeito infinito pela diferença que o torna outro e se interessa sobretudo pela interação que lhe proporcione felicidade e paz. O gesto solidário é o ato de amor, cuja capacidade altruísta modifica as relações sociais de forma a fundar a convivência não violenta e pacífica.

Repercussões na Prática Espírita Concreta


Especificamente na prática espírita, a não-indiferença se estabelece na busca do outro, para entretecer com ele a relação solidária, antes mesmo que o outro nos procure.
 
A aceitação da diferença implica, contudo, uma mudança de atitudes, porquanto ainda vivemos uma fase cultural no movimento espírita de grande preocupação com a manutenção e a salvaguarda da própria identidade cultural, o que pode significar o desenvolvimento de formas diversas de preconceito, discriminação e marcação negativa de diferenças, especialmente relacionadas a outras práticas religiosas e opiniões filosóficas. A desistência da guerra e da disputa de sentidos é uma das mais necessárias condições de existência da fraternidade, para o mundo contemporâneo. Os espíritas não parecem tão fora assim dessa necessidade.
 
A doação, a concessão e a espera determinam, na estrutura espírita de pensamento, o fundamento do gesto de caridade, enquanto oferta sem espera de reciprocidade. É esta ausência de pretensões, capaz de garantir o amor como algo diferente de uma relação comercial, de troca, o sentimento capaz de promover e estimular a solidariedade para com os outros, na teia das relações sociais.
 
E por fim, o sujeito solidário jamais vê a diferença como condição de inferioridade no outro. Por tal razão, nunca se estabelece numa relação de subalternidade, ainda que disfarçada no rótulo de "necessitado" ou "assistido". O outro, na condição de ser diferente que se torna próximo (a solidariedade, dentro de uma terminologia especificamente cristã, é exatamente a ação que promove a proximidade, garantindo a diferença do outro), diante de nós é sempre alguém cuja diferença leciona para a nossa ignorância ou oferta-nos a novidade capaz de nos transformar. Uma postura autoritária percebe a diferença do outro como erro a ser alterado pela intervenção do eu; uma postura solidária vê na alteridade o momento do aprendizado de si mesma.

Artigo reproduzido com autorização do autor