Joana de Cusa, Discípula

de Primeira Hora

 

Renato Costa

 


(Artigo Publicado originalmente na edição de Julho de 2004 da Revista Internacional de Espiritsmo)

 

Evolução e Aprendizado

 

Sabemos, conforme nos ensina a Doutrina, que o Espírito deve evoluir em sabedoria e bondade desde seu estágio inicial, quando é criado simples e ignorante, até alcançar a meta final, qual seja, a perfeição dos Espíritos Puros.

 

Evolui o Espírito, basicamente, de duas maneiras. Uma delas se dá quando um Espírito mais adiantado que ele lhe ensina algo que sabe e ele, com humildade, aceita o ensinamento recebido e passa a agir e pensar em conformidade com o que aprendeu. Essa maneira, sem dúvida a mais rápida e suave e a única necessária para a aprendizagem de Espíritos esclarecidos, é, no mais das vezes, imprópria para a aprendizagem de Espíritos ignorantes, ainda na infância espiritual, que estão sempre a duvidar da experiência alheia e nada aceitam sem que eles mesmos possam vivenciar as experiências que os outros reportam ter vivido.

 

Ocorre, no entanto, que, quanto mais evoluído é um Espírito, mais paciente e indulgente ele é e, em lugar de, conhecendo nossas fraquezas, largar-nos aos nossos primitivos critérios de escolha, ele prefere apostar sempre em nós e segue nos ensinando sempre, com palavras e experiências de vida, confiante que, um dia, despertemos de nossa letargia espiritual e constatemos que as leis de Deus são supremas e a todos se aplicam sem exceção, passando a aceitar os ensinamentos recebidos e os exemplos de vida relatados como se nossas próprias experiências e lições aprendidas fossem.

 

Atingida a condição de bons discípulos, simplificaremos para nós mesmos as etapas de aprendizado, mais tempo nos restando para dedicarmos às boas ações, ao resgate de nossas dívidas, ao engrandecimento de nossa mente em direção ao que é puro, ao que é belo, ao que é sagrado.

 

Tendo em mente o que acabamos de pensar, ouçamos, quais bons discípulos, o relato de algumas vidas da sábia e amorosa Joanna de Ângelis, procurando extrair de tais relatos os profundos ensinamentos que eles nos trazem, para procurarmos usá-los em nossa conduta daqui para frente. Neste artigo falaremos de Joana de Cusa discípula de primeira hora de Jesus.

 

Joana de Cusa

 

Sabe-se de Joana de Cusa um pouco do que relata o evangelista Lucas e um tanto mais do que nos informa o Espírito Humberto de Campos em sua obra Boa Nova, ditada ao nosso querido Chico.

 

Joana foi a esposa de Cusa, um alto funcionário de Herodes Antipas, que foi rei dos Judeus de 4 AC a 39BC. Tendo Joana recebido de Jesus alguma graça ou cura e tendo conhecido os ensinamentos do Mestre, escutando, discreta, suas preleções, buscou segui-lo, sendo por ele orientada a permanecer no lar, ajudando, com seu comportamento e suas palavras, ao marido que lhe havia sido confiado naquela vida.

 O Sermão na Montanha - pintura na parede da Capela Sistina por Cosimo Roselli (1439-1507) e Piero di Cosimo (1462-1521)

Ao nascer-lhe um filho, entregou-se de corpo e alma à sua criação e educação moral, com o mesmo zelo e amor com que assistia ao marido. Seguindo Jesus à distância, dentro das limitações que a função de mãe zelosa e esposa dedicada lhe permitiam, foi uma das mulheres que, com suas posses, atenderam às necessidades do Mestre e de seus discípulos.

 

Logo após o martírio de Jesus, juntou-se a outras mulheres para irem ao sepulcro, levando especiarias e ungüentos para envolver o corpo morto do Mestre. Em chegando, encontraram o sepulcro vazio, podendo, assim, constatar, conforme lhes ensinara Jesus, a sobrevivência do Espírito quando da morte do corpo.

 

Após o falecimento do marido, teve que trabalhar para outras famílias para poder sustentar o filho, o que fez com dignidade até a velhice.

 

Em uma das muitas perseguições que sofreram os cristãos nos primeiros séculos, foi encarcerada com seu filho e outros seguidores de Jesus e levada ao circo em Roma. , no dia 27 de agosto do ano de 68, foi sacrificada numa fogueira junto com o filho e diversos outros mártires que se negaram a abjurar sua .

 

O relato de Humberto de Campos sobre os momentos finais de Joana contém uma informação adicional que nos interessa, de forma particular. Conta-nos Humberto de Campos que, quando as chamas atingiam o corpo de Joana e ela, serena, vivenciava tais momentos de dor com a mente fixa em Jesus, um carrasco a interpelou, indagando:

- O teu Cristo soube apenas ensinar-te a morrer?

Ao que ela respondeu, serena:

- Não apenas a morrer, mas também a vos amar!...

No dilema emocional e mental tremendo de ter que decidir entre manter-se fiel a Jesus ou traí-lo para salvar a vida de seu filho, ela encontrou forças para dar vitória à mente e dominar a emoção. E, mais, no momento supremo, demonstrou ter aprendido, no mais íntimo de seu ser, a amar até mesmo aos seus algozes.

Quanto aprendeu Joana de Cusa junto ao amado Mestre!

*

Ponderemos, agora. Que lições nosso modesto estágio evolutivo nos permite tirar desses momentos finais de Joana de Cusa? Será que seu exemplo nos servirá quando estivermos prontos a morrer por Jesus? Pensamos que não.

Tenhamos sempre destemor em defender os ensinamentos de nosso Mestre e amigo. Não sejamos covardes, omitindo-nos frente a injustiças, quando podemos enfrentá-las com a luz do conhecimento que adquirimos. Não importa o quanto as circunstâncias nos sejam desfavoráveis, jamais abandonemos os ensinamentos de Jesus, sendo pacientes, gentis e dedicados para com todos aqueles que nos cercam, não importa se nos tratam bem, mal ou com indiferença. Desenvolvamos nossos sentidos para que aprendamos a amar aos que nos ofendem ou prejudicam, vendo neles irmãos mais atrasados que nós e que, por isso mesmo, necessitam de nossa ajuda e compreensão.

Ensaiemos em pequena escala, desde , essa atitude sublime de Joana de Cusa. Se ainda não conseguimos amar nossos inimigos, que comecemos aprendendo a não mais odiá-los. Se ainda não conseguimos utilizar o conhecimento que adquirimos para levar a luz onde as trevas predominam, que, pelo menos, aprendamos a não aumentar as trevas existentes com nossos sentimentos desencontrados, dominando nossas emoções e educando nossa mente para o bem.

Jesus não espera de nós mudanças radicais, pois conhece nossas deficiências e fraquezas. Espíritos adiantados seguem Jesus mais de perto ajudando-nos, assim, a enxergar a meta a atingir. Mas, como diz o velho ditado, o caminho de mil milhas começa com o primeiro passo. Que tenhamos determinação, pois, para dar o primeiro passo. Com os olhos fixos na meta, um dia chegaremos .

*

Será que as únicas lições que temos a aprender da vida de Joana de Cusa são as expressas por seus momentos finais? Estamos certos de que não. Uma vida tão sublime é um manancial de lições perceptíveis que um artigo desta natureza carece de espaço para comentar, sem contar aquelas que nos fogem face às nossas limitações de entendimento. Dentre as que nos são claras, gostaríamos de comentar uma lição de imensa importância que a alguns pode ter passado desapercebida.

Estávamos, em um Sábado à tarde, preparando este estudo e nada de nos vir a inspiração fácil. A introdução, que tínhamos feito em um dia de semana à noite, depois de nossos filhos terem ido dormir, havia corrido solta da mente ao teclado do computador, direta, sem dúvidas, sem hesitações. Por que o texto seguinte vinha sendo tão difícil? Escrevíamos, apagávamos, escrevíamos de novo, o trabalho não ia adiante. Por que? Foi, então, que algo nos veio à mente: “Não está na hora de estar com as crianças?”. Paramos tudo e fomos brincar com os meninos, assim ficando até de noite quando eles foram dormir. Uma hora, nesse meio tempo, quando saímos com eles para comprar refrigerantes, mais uma idéia nos veio à mente: Como quer ensinar aos outros algo que você ainda não aprendeu?”

Pois é, caros irmãos e irmãs, a outra lição dessa vida de Joana de Cusa que nos é grato comentar é o ensinamento que lhe foi dado por Jesus. Quando Joana quis segui-lo, o Mestre lhe disse que não o fizesse, antes ficando junto de seu marido para tornar-se, perto dele, um exemplo de vivência cristã, cumprindo a missão que lhe havia sido confiada.

 

A missão principal de quem constitui família é junto a ela, exemplificando, pelo seu comportamento e pelas suas palavras, o verdadeiro significado de ser cristão. Quem coloca a atividade que considera cristã ou, no caso que nos interessa, espírita, na frente de seus deveres para com a família, deveres esses sempre assumidos na espiritualidade, se equivoca se pensa que tal é a vontade de Deus. Não. Não foi isso que Jesus ensinou a Joana de Cusa e que o relato de sua vida nos permite aprender.

 

O trabalhador espírita deve ser absolutamente sério com os compromissos assumidos, tanto na casa espírita, quanto no trabalho que lhe traz o sustento, quanto no lar, jamais faltando a qualquer deles por motivo fútil ou pueril. No entanto, jamais deverá ignorar uma necessidade real da família sob a alegação de que um compromisso com a casa espírita, ou, por outra, com o trabalho, lhe demanda a presença. Se existem pais espíritas cujos filhos não seguem o Espiritismo, se existem filhos de pais trabalhadores que se desencaminham na vida, não estará uma indicação de que essa lição que nos passa a vida de Joana de Cusa não foi aprendida?

 

Bibliografia

 

·         Costa, Renato. Aprendendo com Joanna de Ângelis. Estudo apresentado na Instituição Espírita Joanna de Ângelis, em 11 de dezembro de 2003.

 

·         Santos, Celeste e Franco, Divaldo P. A Veneranda Joanna de Ângelis. 6 Ed. LEAL. Salvador, 1998.

 

·         Xavier, Francisco Cândido. Boa Nova. Ditado pelo Espírito Humberto de Campos. 30 Ed. FEB. Rio de Janeiro, 2002.

 

·         Bíblia Sagrada. Tradução dos Originais mediante a versão dos Monges de Mardesous. 112 Ed. Ave Maria, 1997.

 

·         Expoentes da Codificação Espírita. Federação Espírita do Paraná. Curitiba, 2002.