Como
deve ser medida a comunicação de uma pessoa?
Algumas pessoas acham que deve ser pela preocupação em
buscar palavras do dicionário, mesmo que noventa por cento dos
leitores não saibam o que significam; em colocar estilos
eruditos, próclises, ênclises e mesóclises
gramaticalmente bem aplicados; em citar nomes de personalidades
inglesas, alemãs, italianas.. que essa maioria nunca ouviu
falar; em citar expressões em Latim e em citar páginas de
um monte de livros e autores; ainda por cima tendo a
obrigação de resumir o texto, mesmo que esse resumo deixe
os leitores apenas com idéias superficiais sobre o assunto
enfocado.
Mas
será que o estilo que faz com que o maior percentual dos que
lêem, se possível cem por cento, entenda perfeitamente o
que está sendo comunicado, não é mesmo o mais
eficiente?
Há algum tempo, conversando com um médico amigo meu, que
atendia uma camada muito popular de pessoas em Belém do
Pará, no serviço público de saúde, ele
dizia-me que ao ensinar a muitas pessoas como deveriam utilizar o
supositório que lhes receitava, não tinha outra forma de
fazê-las entender que não fosse utilizando o nome comum da
área do corpo humano onde o mesmo deveria ser aplicado,
conhecido por cem por cento dos brasileiros, porque muitas vezes quando
utilizava o nome cientificamente correto, muitos fingiam entender, mas
tomavam via oral, com água, como comprimidos.
Mas
aí os puristas e altamente elevados, devem questionar:
“como é que pode um
médico, utilizar-se de palavras
chulas?”.
Questionemos: O objetivo, naquele momento, era curar a doença
que levou o paciente ao consultório ou usar o
reduzidíssimo tempo que os médicos têm para atender
cada um necessitado para ensinar-lhe Português e enriquecimento
de vocabulário?
Sei
que muitos discordam, mas o objetivo da comunicação
é comunicar e se fazer entender.
Pois
bem.
Como
anda a comunicação nas casas espíritas, sobretudo
quando se trata de criança e adolescente?
Qual
a eficiência registrada dos cursos de evangelização
e de doutrina nos centros espíritas?
Hoje
vivemos um mundo em que a juventude fala a língua dos shopping
centers, dos Mc Donald’s, do hamburger, batata frita,
diálogo pelo MSN, horas ao telefone com colegas de
colégio, vídeo game, play station,
“Malhação”, passar o dia ou final de semana
nas casas de colegas e toda essa modernidade que todos acompanhamos,
falando uma linguagem até horrível, monossilábica,
cheia de “hanrãs” e outras coisas que nem sabemos o
que significam.
Os
seus pais, cobertos de razão, preocupam-se com o seu futuro e
fazem de tudo para colocá-los em algum local saudável,
onde eles possam receber alguma educação e
orientação boa, já que os conceitos adquiridos
através dos colegas e apenas da televisão e revistas
sempre podem proporcionar conseqüências desastrosas.
Por
serem espíritas, ouvem falar que no centro existe uma atividade,
todos os sábados à tarde, ou domingos, para as
crianças e adolescentes, e o matricula.
Talvez visualizem no centro espírita a mesma excelência
didática do codificador do Espiritismo e podem até se
iludirem que encontrarão uma educação no modelo
Pestalozzi, já que o Kardec foi discípulo daquele grande
Mestre.
Impõem ao filho: “Tem
que ir!”, “se
você
não freqüentar, não terá televisão,
mesada...”.
Esses filhos encontrarão pedagogos, pessoas especializadas em
educação, formadas e experts no assunto?
Não. Elas encontrarão moças e rapazes de muito boa
vontade, maioria pessoas honestas, dignas e algumas até
carinhosas, que em regime de voluntariado se dispõem a realizar
aquele trabalho no centro.
Geralmente são pessoas que vieram de problemas sérios em
suas vidas, experiências amargas e muito sofrimento, que
encontraram algum conforto naquela instituição. Se
tornaram espíritas ali, porém com um detalhe: Formaram a
sua cultura espírita conforme a cabeça do dirigente da
casa, mantém contatos espíritas apenas com membros da
diretoria daquela casa, que também pensam conforme o dirigente
maior, caso contrário não seriam diretores.
Acompanhem a linha de raciocínio:
Existe possibilidade do dirigente de um centro espírita praticar
o Espiritismo conforme ele verdadeiramente é: sem
proibições, sem obrigações, liberdade de
pensamento e expressão, disposição para pesquisar,
relacionamento entre as pessoas com base no Evangelho e tudo isto que
qualquer espírita consciente e lúcido sabe. Mas existe
também a possibilidade do dirigente praticar o que chamo
repetidamente de “espiritismo
à moda da casa”,
conforme a sua cabeça, carregado de proibições,
obrigações, censuras, conceitos moralistas equivocados,
patrulhamento da vida dos outros, “humildades” de
aparência e tudo isto.
Daí a tendência desses instrutores seguirem a sua mesma
visão da doutrina, os seus métodos e a sua forma de
conduzir o centro.
Tentarão passar aquela “cabeça” para as
crianças e os adolescentes freqüentadores.
- “Olha.
Vocês não podem ficar aqui batendo palmas
para ninguém, viu? Senão incentiva a vaidade!”.
-
“Soninha, por que você trouxe estas flores pra cá
hoje? Isto aqui não é igreja não, Soninha,
é um centro espírita. Sinto muito, mas elas não
vão poder ficar aqui”.
-
“Mauricinho, da próxima vez você não vai
poder entrar, se vier novamente de bermuda. O centro espírita
é uma casa de respeito”.
- “Olha
Kátia, essa sua saia está curta demais.
Você deve se vestir de forma respeitosa.”.
-
“César, isto não é pergunta que se
faça em uma casa espírita.”
-
“Vocês não têm nada que questionar isto, se
André Luiz disse assim, tem que ser assim e pronto”.
-
“Vocês não devem freqüentar outros centros
espíritas. Cada um deve ter o seu centro, para não virar
confusão. A disciplina é indispensável.”
Não quero generalizar todos os evangelizadores de centros
espíritas como desqualificados, porque seria também uma
incoerência de minha parte. Existem instituições
espíritas que têm trabalhos com crianças e jovens
da mais alta qualidade, do ponto de vista didático, com
instrutores da maior qualidade e resultados excelentes. Mas é
uma minoria, bem pequena mesmo.
Imagine você uma instrutora de um centro espírita (ou
mesmo de um colégio convencional), que vem de uma
experiência de vida de absoluta desilusão com os homens,
porque em sua história ela nunca foi feliz em nenhum
relacionamento. Passou a infância convivendo com um pai
alcoólatra, que batia na sua mãe, que se dedicava apenas
a amantes e não tinha nunca disponibilidade de carinho e muito
menos sexo para a sua mãe, o primeiro namorado que teve era um
despreparado total, como a quase totalidade dos jovens, a primeira
relação sexual que teve foi carregada de medos,
conflitos, consciência pecaminosa, vendo-se praticando algo que
na sua visão era imoralidade, depois engravidou-se de um cara
que se mandou e a deixou a “ver navios”, em outra
experiência o cara só queria aproveitar-se sexualmente
dela; em outro caso, o noivo que sempre lhe levava rosas, o “amor
da sua vida”, foi encontrado com outra, e quase se matou por
causa disto. Só viu falsidades, chantagens, agressões e
insensibilidade nos homens com os quais conviveu. Sempre escolheu mau.
O
que uma pessoa desta vai dizer para as adolescentes suas alunas a
respeito dos homens?
- “Homem
nenhum presta. São todos iguais.”
-
“Cuidado. Não confie nunca em
ninguém”.
-
“Não dê importância a homens que dão
flores. Todos são traidores, flores é sinônimo de
traição”.
Tem
outro aspecto, que precisamos levar em consideração:
Os
ambientes nos centros espíritas geralmente não são
nada atraentes para adolescentes, muito menos para crianças, do
ponto de vista visual, por várias razões: Primeiro pela
carência de recursos da instituição
espírita, haja vista participar de um movimento
filosófico que tem verdadeiro trauma com a palavra dinheiro.
Segundo, porque, entre todos os segmentos filosóficos
religiosos,
o freqüentador da casa espírita é o que menos
contribui com a casa, daí depararmos com centros
espíritas sempre dizendo que nunca têm dinheiro para nada.
Terceiro pela conceituação equivocada da humildade que,
na cabeça de muitos, tem que ser entendida como tudo pobre, tudo
do mais barato possível, aquelas cadeiras plásticas de 8
reais, a tinta mais barata nas paredes, uma ou duas lâmpadas
fluorescentes apenas, para economizar energia, numa sala que requer no
mínimo umas seis.
Por
favor, não entenda esta minha matéria como simples
crítica a centro espírita, porque não é
este o meu objetivo. Não quero aqui dizer que dirigentes
são incompetentes e incapazes de fazerem um centro
espírita com bom gosto visual, bem iluminado, com cores
equilibradas, agradáveis e alegres, alto astral e de bem como a
vida. Não é bem isto, porque sei muito bem das
dificuldades que muitos enfrentam.
Só que o problema nem sempre é questão apenas de
dificuldade não, gente, é questão de cabeça
mesmo. Tem muito espírita que adora o baixo astral, que faz
apologia ao sofrimento, à coisa triste, ao ambiente
lúgubre e ao “silêncio”. Você ainda vai
ver muito centro espírita estampar nas paredes que “o
silêncio é uma prece”.
Música no centro? Nem pensar!
Eu
não estou falando em pagode, durante a reunião
mediúnica, em axé music, em rock pauleira, estou falando
em música de alto nível, que auxilia a boas sintonias!
De
forma alguma! O espiritismo não precisa de muletas! Não
devemos estar colocando enxertos na doutrina! É o que
muitos
dizem.
O
que se pode fazer?
Converse com o seu jovem e procure saber se, do fundo do seu
coração, ele fica satisfeito em deixar de estar nas luzes
e na alegria do shopping center para estar na “humildade”
de determinados centros espíritas.
Eu
já tive o trabalho de perguntar a jovens adolescentes, gravando
as suas impressões com minha câmera de vídeo:
- “Eu quero
ouvir de você toda sinceridade e uma resposta
sem medo de ninguém e de nada, para o que vou lhe perguntar:
Você veio a esta evangelização, porque você
gosta daqui, porque está se sentindo bem aqui ou porque os seus
pais determinaram que você viesse? Por favor, quero toda
sinceridade.”
Em
cada dez, oito responderam que foram obrigados
pelos pais.
Não precisa você necessariamente acreditar na pesquisa do
Alamar não; faça você mesmo a pesquisa, com a mesma
pergunta, pra ver uma coisa.
Não quero estabelecer comparações religiosas,
porque o Espiritismo não entra em competições com
religião nenhuma, todavia, caso você seja uma pessoa
curiosa e queira sentir como isto funciona em outros segmentos, procure
visitar igrejas protestantes, diversas, e procure conhecer o trabalho
que fazem com as crianças e os adolescentes. Em
princípio, quase todas elas terão pessoas, altamente
receptivas, logo na porta da igreja, que estenderão tapete
vermelho para você e terão uma alegria imensa em lhe
mostrar tudo o que eles têm e fazem.
Não entra aqui o mérito dos seus interesses, porque
aí já é outra questão. O que estou falando
é em recepção, em sorrisos nos lábios, em
educação, cordialidade, respeito a quem chega, não
indiferença, valorização à sua pessoa,
prazer em lhe receber, disposição em lhe deixar feliz
naquele ambiente.
Eu
não posso fazer isto com mais freqüência porque na
maioria das vezes enfrento um problema sério, que é o de
ser reconhecido como espírita, por alguns, por causa da
televisão, já tendo sido até posto pra fora de uma
dessas igrejas, por razões que vocês já conhecem.
Quero dizer que em uma delas, onde tive a oportunidade de visitar um
trabalho destinado aos jovens, vi uma sala enorme, chiquérrima,
toda no granito, com vários ambientes com televisores enormes,
DVDs, telões, pianos, teclados eletrônicos,
violões, equipamentos de som... enfim, uma coisa tão
impressionante, que os jovens não querem nem que chegue logo a
hora de voltarem para casa. Engraçado é que nesta igreja,
também eu fui reconhecido como espírita, mas mesmo assim
me receberam com muito carinho.
Sei
que nem todos os centros espíritas dispõem de
condições para manterem salas em granitos, com
telões, DVDs, pianos etc. mas de uma coisa você pode ter
certeza: há muitos centros espíritas, que têm
universos de freqüentadores de posses, em condições
de se juntarem e montarem estruturas mais interessantes e bonitas. O
que precisa é que determinadas diretorias saiam da falsa
humildade, saiam da mania de acharem que pobreza é
sinônimo de evolução espiritual e partam para
fazerem das suas instituições espíritas ambientes
mais aconchegantes, inclusive do ponto de vista material e visual,
obviamente sem abrirem mão do mais importante, que é a
coerência doutrinária.
Muitos vão pelo visual e ficam pelo conteúdo.
A
Dona Guiomar Albanese, em São Paulo, grande líder do
Centro Espírita Perseverança, o maior centro
espírita do mundo, (um dos poucos que o Chico Xavier
freqüentava quando viajava a São Paulo), que tem uma
freqüência diária de mais de 5.000 pessoas ouvindo
palestras, (mais de 25 mil pessoas por semana), construiu mais de 15
creches, atendendo a um número gigantesco de crianças,
com um detalhe: Cada creche do Perseverança tem padrão de
hotel 5 estrelas. A lanchonete do centro espírita tem
padrão superior ao Mc Donald, em variedade, qualidade e
atendimento.
Muita gente é contra ela. Também pudera,
competência demais incomoda. E gera muita inveja também.
Escolhamos, portanto, que tipo de espíritas queremos ser e
desejamos que seja atraente para as nossas crianças e os nossos
adolescentes que, a cada dia que passa, estão nos surpreendendo
com perguntas mais difíceis de serem respondidas:
Espírita do tipo que adora sofrer, que faz apologia à
cara fechada e sizuda, que só vê respeito na postura
formal, no ambiente silencioso, pobre, de mau gosto e construído
tudo com o mais barato que existir, impressos em preto e branco pra
mostrar “humildade”, desejando “muita Paz” e
cantando “quanta luz”?
Ou
quer ser espírita franco, sincero, autêntico, sem
máscaras, sem formalidades, sem teatralizações
deprimentes, sem moralidades aparentes, sem proibições,
sem obrigações, sem patrulhamentos, sem
perseguições a confrades que pensam diferente, de bem com
a vida, sorrindo, tendo a educação e a sensibilidade de
poder reconhecer o trabalho talentoso de outro espírita a ponto
de parabenizá-lo e aplaudi-lo de pé, procurando fazer dos
outros pessoas felizes, e não pessoas angustiadas, masoquistas e
recalcadas.
Pensemos nisto.
Com
muito carinho.
Artigo
recebido do autor com autorização de
reprodução