Como Lidar com as Diferenças de Idéias no Meio Espírita?

Carlos Iglesia

Editor GEAE


Vivermos com as diferenças significa sabermos trocar idéias e compartilhar espaços com pessoas que defendem posições diferentes das nossas nos pontos acessórios da Doutrina.
 
Uma constatação a que não deixa de chegar o observador mais atento é que dentro do movimento espírita existe uma variação de idéias a respeito de pontos acessórios1 da doutrina. Nada de se estranhar, pois o número de espíritas e simpatizantes é muito grande e a unanimidade total de idéias dentro da comunidade espírita é praticamente impossível.

A Doutrina Espírita, e nisto todos concordam, prima pela defesa da fé raciocinada, ou seja, por incentivar o estudo e o raciocínio próprio em torno do conjunto de conhecimentos que a compõe. Não há a adesão a uma forma imposta de pensar, muito menos a sujeição a uma autoridade doutrinária que diga o que é certo ou o que é errado.

O que chamamos de Espiritismo é o ensinamento transmitido pelos Espíritos, ou derivado dos estudos sobre a comunicação mediunica, organizado por Allan Kardec e complementado gradualmente nos cento e poucos anos que se seguiram a sua desencarnação. A complementação foi resultado de novas comunicações e do aprofundamento dos estudos. Este desenvolvimento seu deu principalmente em questões acessórias, que não modificaram o núcleo da Doutrina2:
Entre as questões acessórias tratadas após a desencarnação de Kardec3 podemos citar:
A bibliografia Espírita contemporânea é imensa, refletindo a extensão do campo de assuntos tratados. Neste campo se encontram temas tão distantes quanto o estudo da evolução do princípio inteligente nos reinos animal e vegetal até a discussão sobre as formas de existência em outros planos e mundos, passando pelos testemunhos sobre as condições do mundo espiritual e das leis que o regem.

É justamente nas áreas periféricas deste campo de conhecimentos que surgem as discussões e são nas idéias muito novas ou nas que não encontraram apoio na maioria dos grupos espíritas, que se concentram as divergências.

O exemplo mais clássico é o da polêmica sobre o corpo fluídico de Jesus, que sem entrarmos no seu mérito, reflete justamente uma questão deste tipo. Ela é acessória porque nada interfere no núcleo da Doutrina e é praticamente insolúvel porque as únicas provas que a encerrariam definitivamente seriam a descoberta do túmulo com os restos mortais de Jesus (bastante improvável já que os testemunhos documentais existentes - os Evangelhos - falam de seu desaparecimento na ressureição e, mesmo que os testemunhos não sejam precisos, já se passaram quase 2.000 anos do fato) ou o testemunho do próprio Jesus através de médiuns de credibilidade aceita por todas as partes.

Argumentações baseadas em fatos e conhecimentos doutrinários, mais ou menos sólidas, não têm como resolver a discussão porque há outros aspectos envolvidos além dos racionais. As pessoas têm perfis diferentes, correspondem a tipos psicológicos diferentes4. As mesmas situações apresentadas à pessoas de tipos psicológicos diferentes as levam a conclusões e respostas diferentes.

Além da questão do tipo psicológico há o histórico pessoal. O país onde a pessoa vive, a classe social a que pertence, a organização em que trabalha e os grupos sociais a que se liga nas suas horas livres, todos contribuem para formar a visão de mundo do indivíduo. Visão de mundo que servirá de filtro para o modo como recebe as informações do mundo externo e as interpreta5.

Acrescente-se a estes pontos discutidos o fato de que nosso vocabulário é adaptado às necessidades das sociedades terrenas atuais, as palavras têm múltiplos sentidos e nem sempre são adequadas para expressar idéias que fogem ao modo de vida material. Assim informações sobre o mundo espiritual ou sobre realidades que transcendem a matéria geralmente são trazidas pelos espíritos na forma de analogias ou de aproximações. A interpretação das analogias e das aproximações é fortemente dependente do receptor da informação6.

Como a única forma de não termos divergências de idéias no movimento espírita seria termos todos os espíritas com o mesmo tipo psicológico, e com o mesmo histórico pessoal, não há outra alternativa viável senão vivermos com as diferenças. Naturalmente existiram no passado grupos religiosos que tentaram a uniformidade absoluta e a única forma de obtê-la é pela imposição. Historicamente isto gerou perseguições, intolerância e guerras religiosas. Não são bons exemplos a se seguir, pois ao impor a uniformidade precisaram justamente deixar para trás - ou encobrir através de sofismas - o que é mais importante no seu núcleo: o amor ao próximo.

Vivermos com as diferenças significa sabermos trocar idéias e compartilhar espaços com pessoas que defendem posições diferentes das nossas nos pontos acessórios da Doutrina. Significa compreender que nós e elas somos Espíritas. Significa principalmente sempre ter em mente que:
A solução é a "tolerância". Tolerância no sentido mais amplo de que aceitamos que o outro pense de forma diferente porque ele tem tanto direito quanto nós de ter sua interpretação da fé raciocinada que compartilhamos. Interpretação tão válida quanto a nossa. Se ele está certo e nós errados, ou vice-versa, apenas o tempo dirá.

Claro que a tolerância também vale para as pessoas que divergem de nós até mesmo nos pontos básicos da Doutrina, nos que consensualmente são os que identificam uma pessoa como Espírita, mas nesse caso se trata mais da tolerância com a crença legitima de nossos irmãos de outras religiões e com circunstâncias que fogem ao escopo deste pequeno comentário. É natural neste caso esclarecer a pessoa do que é o Espiritismo e mostrar-lhe, sempre dentro do máximo respeito para suas crenças pessoais, que ela defende idéias diferentes deste.

Kardec disse que a fé verdadeira não teme o uso da razão. Ele poderia ter acrescentado que a fé verdadeira também não teme conviver com diferenças de opinião. A fé verdadeira não teme a troca de idéias e o debate, muito menos teme estudar as opiniões alheias. É a fé vacilante que busca a uniformidade, para não se questionar a si própria.

1 - Estamos chamando de "pontos acessórios" ou "questões acessórias" os temas que são estudados pelos espíritas, mas que não modificam os princípios fundamentais da Doutrina Espírita. Os parágrafos seguintes do editorial apresentam maiores detalhes a respeito.

2 - Os princípios fundamentais da filosofia espírita, conforme descritos por Allan Kardec em um discurso que apresentou por ocasião do dia de finados e que está publicado na  Revue Spirite de dezembro de 1868 (vide Boletim GEAE 277), são:

"Crer num Deus todo-poderoso, soberanamente justo e bom; crer na alma e na sua imortalidade; na preexistência da alma como única justificativa da presente existência; na pluralidade das existências como meio de expiação, reparação e adiantamento intelectual e moral; na perfectibilidade dos seres mais imperfeitos; na felicidade crescente com a perfeição; na remuneração equitativa do bem e do mal, segundo o principio: a cada um segundo as suas obras; na igualdade da justiça para todos, sem exceções, favores nem privilégios para criatura alguma; na duração da expiação limitada à da imperfeição; no livre-arbítrio do homem, deixando-lhe a escolha entre o bem e o mal; crer na continuidade das relações entre o mundo visível e o mundo invisível; na solidariedade que liga todos os entes passados, presentes e futuros, encarnados e desencarnados; considerar a vida terrestre como transitória e uma das fases da vida do Espírito, que é eterna; aceitar corajosamente as provas, visto ser o futuro mais desejável que o presente; praticar a caridade por pensamentos, palavras e obras, na mais ampla acepção do vocábulo; esforçar-se cada dia para ser melhor do que na véspera, extirpando da alma alguma imperfeição; submeter todas as suas crenças ao controle do livre exame e da razão e nada aceitar por uma fé cega; respeitar todas as crenças sinceras, por mais irracionais que nos pareçam e não violentar a consciência de ninguém; ver enfim, nas descobertas da Ciência, a revelação das leis da Natureza, que são as leis de Deus".

3 - Allan Kardec no texto "Rivalidades entre Sociedades" (O Livro dos Médiuns) já tratava a possibilidade das divergências provocadas por questões acessórias:

"(...) Como dissemos no capítulo sobre Contradições, essas divergências têm por motivo, na maioria das vêzes, questões acessórias ou até mesmo simples palavras. Seria pueril, portanto, cindirem o grupo, formando outro à parte por não pensarem exatamente da mesma forma. Haveria ainda coisa pior se os diversos grupos ou sociedades de uma mesma cidade se olhassem recìprocamente com inveja. Compreende-se a inveja entre pessoas que disputam entre si e podem causar-se prejuízos materiais. Mas quando não há especulação a inveja ou o cíume nada mais são do que mesquinha rivalidade provocada pelo amor próprio. Como não pode haver, de maneira alguma, uma sociedade que possa reunir todos os adeptos, as que realmente desejam propagar a verdade, que têm um objetivo exclusivamente moral, devem ver com prazer o aparecimento de novos grupos e, se houver concorrência entre eles deve ser apenas uma emulação no campo do bem. Aquelas que pretendessem estar na posse exclusiva da verdade deveriam prová-lo tomando por divisa: Amor e Caridade, porque essa é a divisa de todo verdadeiro espírita. (...)"

"Se o Espiritismo deve, como foi anunciado, realizar a transformação da humanidade, só poderá fazê-lo pelo melhoramento das massas, o qual só se dará gradualmente, pouco a pouco, pelo melhoramento dos indivíduos. Que importa crer na existência dos Espíritos, se essa crença não tornar melhor, mais bondoso e mais indulgente para os seus semelhantes, mais humilde e mais paciente na adversidade aquêle que a adotou ? (...)"

"Essa é a via pela qual nos temos esforçado para levar o Espiritismo. A bandeira que arvoramos bem alto é a do Espiritismo cristão e humanitário, em torno da qual somos felizes de ver desde já tantos homens se juntarem em todos os pontos da Terra, porque compreendem que está nela a âncora de salvação, a salvaguarda da ordem pública, o signo de uma nova era para a humanidade. (...)". Capítulo XXIX - Reuniões e Sociedades, O Livro dos Médiuns, tradução de J. Herculano Pires, coleção das obras completas de Allan Kardec da EDICEL.

4 - Uma leitura interessante a respeito é o livro "Tipos Psicológicos" de C. G. Jung. que estuda a questão dos tipos psicológicos com grande profundidade.

5 - A diferença cultural e suas implicações na comunicação humana são objeto de importantes estudos, como os do Prof. Geert Hofsted (http://www.geert-hofstede.com/). Em uma pesquisa que desenvolveu com pessoas de 50 filiais da IBM em países diferentes, do mesmo nível dentro da organização, ele identificou algumas características marcantes (chamadas por ele de "dimensões da cultura") que permitiam entender porque elas chegavam a soluções diferentes para os mesmos problemas. Recomendo a leitura do livro "Culture's Consequences : Comparing Values, Behaviors, Institutions, and Organizations Across Nations" do Prof. Geert, ele traz uma excelente visão do que como a "cultura" interfere no modo como vemos e reagimos ao mundo.

6 - "Ninguém pode ultrapassar de improviso os recursos da própria mente, muito além do círculo de trabalho em que estagia; contudo, assinalamos, todos nós, os reflexos uns dos outros, dentro da nossa relativa capacidade de assimilação". Emmanuel, trecho do capítulo "O Espelho da Vida" do livro "Pensamento e Vida", médium Francisco Cândido Xavier, FEB.


Editorial do Boletim GEAE - Grupo de Estudos Avançados Espíritas - Ano 13 - Número 498 - 2005 reproduzido com autoização do autor