Cairbar Schutel

Richard Simonetti

Pinga Fogo*


1 - Que reflexão podemos fazer em relação aos 100 anos de “O Clarim”?

            O pessoal da “velha guarda”, em Bauru, comentava as dificuldades em trabalhar pela divulgação do Espiritismo nos idos de 30 e 40, no século passado, em face da má vontade da mídia, preocupada com a repercussão negativa junto às lideranças religiosas que exerciam grande influência sobre os leitores. A Doutrina era “coisa do demo”. Imagino a coragem de Cairbar Schutel, lançando um jornal espírita em pleno início do século, num vilarejo interiorano. Foi obra de gigante.

2 - O que você destacaria em sua personalidade?

            Sua notável capacidade de trabalho, envolvendo a atividade profissional, a  filantrópica, a direção do Centro Espírita e a divulgação doutrinária com produção e publicação de livros, um jornal e uma revista, bem como o pioneirismo na utilização da radiofonia em programas espíritas. Isso sem falar de seu desassombro ao sustentar polêmicas com detratores de seu trabalho.    

3 - A que você atribui essa versatilidade?

            Como todos sabemos, Schutel foi um bandeirante. Veio para desbravar horizontes e abrir caminhos, oferecendo exemplos marcantes de vivência espírita. Atentando à missão do Brasil, pólo de irradiação do Espiritismo iluminado pelo Evangelho, não tenho dúvida de que é alguém do primeiro escalão. Oportuno lembrar que reencarnou em 22 de setembro 1868, seis meses antes do desencarne de Kardec. Obviamente, colaborou na obra da Codificação.

4 - Cairbar conseguia aproveitar bem o tempo, desenvolvendo múltiplas atividades, sempre produtivo em todas elas. Há pessoas bem dotadas, igualmente, tipo “dos sete instrumentos”, que não conseguem o mesmo. Por quê?

            Costuma-se dizer que tempo é uma questão de preferência. Sempre encontramos tempo para fazer o que nos agrada. Mas é, também, uma questão de disciplina, evitando espaços de contemplação vazia ou de lazer improdutivo. Schutel não perdia tempo, movimentando-se incansavelmente naquela maravilhosa sucursal da Espiritualidade Maior, espaço onde se localizavam a farmácia, sua residência, o Centro e a editora.

5 - Não é o lazer algo necessário ao espairecimento, renovando nossas energias? E como fica a família?

            Não há melhor lazer do que trabalhar com prazer. Quem gosta do que faz nunca experimenta o peso do trabalho. E Schutel, como revela sua biografia, jamais descuidou de sua esposa, Maria Elvira, a dona Mariquinha, sua grande companheira, que o precedeu no retorno à espiritualidade, vitimada pela hanseníase.

6 - Como você vê as homenagens que estão sendo prestadas a Cairbar Schutel, no centenário de “O Clarim”?

            Justas e oportunas, como ensejo para um encontro com a cultura espírita, evocando um passado de lutas heróicas e grandiosas conquistas. E não esqueçamos de que a homenagem que mais o sensibilizará será o nosso empenho por não nos acomodarmos, seguindo seus passos na divulgação doutrinária e no desdobramento do trabalho social espírita, em favor de uma sociedade mais justa e feliz.
                 

7 - Como escritor, qual a sua avaliação quanto à produção literária de Cairbar Schutel?

            Ele pertence à categoria dos debulhadores, escritores que trocam em miúdos a Doutrina, em estilo simples e objetivo, colocanda-o ao alcance de qualquer inteligência, sem preocupações eruditas nem vocabulário arrevesado. É esse tipo de literatura que ganha o coração dos leitores, permitindo-lhes assimilar sem maiores problemas o conteúdo espírita.

8 - Algum episódio significativo na exemplar existência de Cairbar Schutel?

            Conta Sérgio Lourenço, no livro Cairbar Schutel na Intimidade, que certa feita, fazendo sua iniciação como pescador, ele ficou com tanta pena do peixe fisgado que o soltou, passando a orar por sua recuperação. E nunca mais pegou numa vara de pescar. Albert Schweitzer denominava esse comportamento de reverência pela vida, sentimento típico dos Espíritos superiores em trânsito pela Terra.

* Coluna publicada na Revista Internacional de Espiritismo, edição de agosto de 2005 e reproduzida com autorização do autor