Aprendendo com
Joanna de Ângelis



Renato Costa


“Enquanto o egoísmo conspira contra a caridade, esta é-lhe a terapia eficiente, única de que dispõe a vida para desenvolver os sentimentos de fraternidade e justiça entre os homens”

Joanna de Ângelis

Introdução
 
Foi com emoção que aceitamos o pedido de nossa querida Teresinha Oliveira para que apresentássemos em seu lugar um estudo sobre Joanna de Ângelis, dado que ela estaria impossibilitada de comparecer à sub-sede da Instituição para o evento marcado. Tendo em mente a dimensão do assunto que nos foi oferecido, no entanto, ficamos diante de um dilema. Em um estudo de uma hora não poderíamos abordar tudo o que nos agradaria falar sobre a amorosa e sábia mentora de nossa casa.

Poderíamos falar da obra de Joanna, mas teríamos que escolher se falaríamos da obra social ou da obra literária. Obra social que inclui a Mansão do Caminho e uma diversidade de outras entidades beneméritas às quais empresta o nome e que dirige da espiritualidade, dentre elas a nossa Instituição e Escola Espírita Joanna de Ângelis. O site www.joannadeangelis.org.br relaciona, até agora, 78 entidades que levam o nome de Joanna espalhadas pelo país. Obra literária que é composta, até o momento, de 55 livros, 34 dos quais traduzidos para outros idiomas, além de milhares de belíssimas mensagens, sempre através da mediunidade de Divaldo Franco, a quem  orienta e inspira. Poderíamos, por outro lado, contar as vidas de Joanna, conforme foram por ela reveladas a Divaldo e pesquisadas nos registros históricos e em mensagens da espiritualidade. Como escolher?

Foi aí que nos nasceu a idéia ou - quem sabe? - fomos intuídos a pensar: “E se a gente usasse o relato das vidas de Joanna para tirarmos para nós algum aprendizado?” E foi assim que resolvemos fazer.

Evolução e Aprendizado

Sabemos, conforme nos ensina a Doutrina, que o Espírito deve evoluir em sabedoria e bondade desde seu estágio inicial, quando é criado simples e ignorante, até alcançar a meta final, qual seja, a perfeição dos Espíritos Puros.

Evolui o Espírito, basicamente, de duas maneiras. Uma delas se dá quando um Espírito mais adiantado que ele lhe ensina algo que sabe e ele, com humildade, aceita o ensinamento recebido e passa a agir e pensar em conformidade com o que aprendeu. Essa maneira, sem dúvida a mais rápida e suave e a única necessária para a aprendizagem de Espíritos já esclarecidos, é, no mais das vezes, imprópria para a aprendizagem de Espíritos ignorantes, que estão sempre a duvidar da experiência alheia e nada aceitam sem que eles mesmos possam vivenciar as experiências que os outros reportam ter vivido.

Ocorre, no entanto, que, quanto mais evoluído é um Espírito, mais paciente e indulgente ele é e, em lugar de, conhecendo nossas fraquezas, largar-nos aos nossos primitivos critérios de escolha, ele prefere apostar sempre em nós e segue nos ensinando sempre, com palavras e experiências de vida, confiante que, um dia, despertemos de nossa letargia espiritual e constatemos que as leis de Deus são supremas e a todos se aplicam sem exceção, passando a aceitar os ensinamentos recebidos e os exemplos de vida relatados como se nossas próprias experiências e lições aprendidas fossem.

Atingida a condição de bons discípulos, simplificaremos para nós mesmos as etapas de aprendizado, mais tempo nos restando para dedicarmos às boas ações, ao resgate de nossas dívidas, ao engrandecimento de nossa mente em direção ao que é puro, ao que é belo, ao que é sagrado.

Tendo em mente o que acabamos de pensar, ouçamos, quais bons discípulos, o relato de algumas vidas de nossa querida Joanna, procurando extrair de tais relatos os profundos ensinamentos que eles nos trazem, para procurarmos usá-los em nossa conduta daqui para frente.

Algumas Vidas de Joanna e o que elas nos Ensinam

Joana de Cusa

Sabe-se de Joana de Cusa um pouco do que relata o evangelista Lucas e um tanto mais do que nos informa o Espírito Humberto de Campos em sua obra Boa Nova, ditada ao nosso querido Chico.

Joana foi a esposa de Cusa, um alto funcionário de Herodes. Tendo recebido de Jesus alguma graça ou cura e tendo conhecido os ensinamentos do Mestre, buscou segui-lo, sendo por ele orientada a permanecer no lar, ajudando, com seu comportamento e suas palavras, ao marido que lhe havia sido confiado naquela vida.

Ao nascer-lhe um filho, entregou-se à sua criação e educação moral, com o mesmo zelo e amor com que assistia ao marido. Seguindo Jesus à distância, foi uma das mulheres que, com suas posses, atenderam às necessidades do Mestre e de seus discípulos.

Logo após o martírio de Jesus, juntou-se a outras mulheres para irem ao sepulcro, levando especiarias e ungüentos para envolver o corpo morto do Mestre. Em lá chegando, encontraram o sepulcro vazio, constatando, conforme lhes ensinara Jesus, a sobrevivência do Espírito quando da morte do corpo.

Após o falecimento do marido, teve que trabalhar para outras famílias para poder sustentar o filho, o que fez com dignidade até a velhice.

Em uma das muitas perseguições que sofreram os cristãos nos primeiros séculos, foi encarcerada com seu filho e outros seguidores de Jesus e levada ao circo em Roma. Lá, no dia 27 de agosto do ano de 68, foi sacrificada numa fogueira junto com o filho e diversos outros mártires que se negaram a abjurar sua fé.

O relato de Humberto de Campos sobre os momentos finais de Joana contém uma informação adicional que interessa, de forma particular, ao nosso intento. Nos conta Humberto de Campos que, quando as chamas já lhe atingiam o corpo e ela, serena, vivenciava tais momentos de dor com a mente fixa em Jesus, um carrasco a interpelou, indagando:

- O teu Cristo soube apenas ensinar-te a morrer?

Ao que ela respondeu:

- Não apenas a morrer, mas também a vos amar!...

No dilema emocional e mental tremendo de ter que decidir entre manter-se fiel a Jesus ou traí-lo para salvar a vida de seu filho, ela encontrou forças para dar vitória à mente e dominar a emoção. E, mais, no momento supremo, demonstrou ter aprendido a amar até mesmo aos seus algozes.

Quanto aprendeu Joana de Cusa junto ao amado Mestre!

*

Ponderemos, agora. Que lições nosso modesto estágio evolutivo nos permite tirar desses momentos finais de Joana de Cusa? Será que seu exemplo só nos servirá quando estivermos prontos a morrer por Jesus? Pensamos que não.

Tenhamos sempre destemor em defender os ensinamentos de nosso Mestre e amigo. Não sejamos covardes, omitindo-nos frente a injustiças, quando podemos enfrentá-las com a luz do conhecimento que adquirimos. Não importa o quanto as circunstâncias nos sejam desfavoráveis, jamais abandonemos os ensinamentos de Jesus, sendo pacientes, gentis e dedicados para com todos aqueles que nos cercam, não importa se nos tratam bem, mal ou com indiferença. Desenvolvamos nossos sentidos para que aprendamos a amar aos que nos ofendem ou prejudicam, vendo neles irmãos mais atrasados que nós e que, por isso mesmo, necessitam de nossa ajuda e compreensão.

Ensaiemos em pequena escala, desde já, essa atitude sublime de Joana de Cusa. Se ainda não conseguimos amar nossos inimigos, que comecemos aprendendo a não mais odiá-los. Se ainda não conseguimos utilizar o conhecimento que adquirimos para levar a luz onde as trevas predominam, que, pelo menos, aprendamos a não aumentar as trevas com nossos sentimentos desencontrados, dominando nossas emoções e educando nossa mente para o bem.

Jesus não espera de nós mudanças radicais, pois conhece nossas deficiências e fraquezas. Espíritos adiantados seguem Jesus mais de perto para que possamos enxergar a meta a atingir. Mas, como diz o velho ditado, o caminho de mil milhas começa com o primeiro passo. Que tenhamos determinação, pois, para dar o primeiro passo. Com os olhos fixos na meta, um dia chegaremos lá.

*

Será que as únicas lições que temos a aprender da vida de Joana de Cusa são as expressas por seus momentos finais? Cremos que não. A nosso ver, existe uma de imensa importância que pode ter-nos passado desapercebida.

Estávamos, em um Sábado à tarde, preparando este estudo e nada de nos vir a inspiração fácil. A introdução, que tínhamos feito em um dia de semana à noite, depois de nossos filhos terem dormido, havia corrido solta da mente ao teclado do computador, direta, sem dúvidas, sem hesitações. Por que o texto seguinte vinha sendo tão difícil? Escrevíamos, apagávamos, escrevíamos de novo, o trabalho não ia adiante. Por que? Foi, então, que algo nos veio à mente: “Não está na hora de estar com as crianças?”. Paramos tudo e fomos brincar com elas, assim ficando até de noite quando foram dormir. Uma hora, nesse meio tempo, quando saímos com eles para comprar refrigerantes, mais uma idéia nos veio à mente: “Como quer ensinar aos outros algo que ainda não aprendeu?”

Pois é, caros irmãos e irmãs, a outra lição dessa vida de Joana de Cusa foi o ensinamento que lhe foi dado por Jesus. Quando ela quis segui-lo, o Mestre lhe disse que não o fizesse, antes ficando junto de seu marido para tornar-se, junto a ele, um exemplo de vivência cristã, cumprindo a missão que lhe havia sido confiada.

A missão principal de quem constitui família é junto a ela, exemplificando, pelo seu comportamento e pelas suas palavras, o verdadeiro significado de ser cristão. Quem coloca a atividade que considera cristã ou, no caso que nos interessa, espírita, na frente de seus deveres para com a família, deveres esses sempre assumidos na espiritualidade, se equivoca se pensa que tal é a vontade de Deus. Não. Não foi isso que Jesus ensinou a Joana e que o relato de sua vida nos permite aprender.

O trabalhador espírita deve ser absolutamente sério com os compromissos assumidos, tanto na casa espírita, quanto no trabalho que lhe traz o sustento, quanto no lar, jamais faltando a qualquer deles por motivo fútil ou pueril. No entanto, jamais deverá ignorar uma necessidade real da família sob a alegação de que um compromisso com a casa espírita, ou, por outra, com o trabalho, lhe demanda a presença. Se existem pais espíritas cujos filhos não seguem o Espiritismo, se existem filhos de pais trabalhadores que se desencaminham na vida, não estará aí uma indicação de que essa lição que nos passa a vida de Joana de Cusa não foi aprendida?

Sóror Juana Inés de la Cruz

Juana Ramírez de Asbaje nasceu em 12 de novembro de 1648 ou de 1651 (vide Nota) na pequena cidade de San Miguel Nepantla, a pouca distância da cidade do México, filha natural de Isabel Ramírez de Santillana e do Capitão Pedro Manuel de Asbaje.  Tendo ele abandonado a mãe de Juana quando esta era ainda muito pequena, Juana acabou sendo criada pelo avô materno, Pedro Ramírez, homem culto e educado, em uma fazenda deste, em Pandoyán.

Foi precoce em seus estudos, tendo produzido seus primeiros versos aos 5 anos. Aos 12, morando com sua tia materna na Capital, aprendeu latim em 20 lições e português por conta própria. Quando tinha 14 anos, aceitou convite do Vice-rei, Antonio Sebastián de Toledo, Marquês de Mancera e foi ser dama de companhia de sua esposa, Leonor, na corte dos Vice-reis do México. Contam suas biografias que, como o talento de Juana vinha provocando comentários invejosos na corte, o Vice-rei fez, uma vez, com que ela fosse argüida em público por uma banca de 40 homens sábios, tendo ela, respondido com êxito a todas as perguntas. Ela tinha 17 anos nessa ocasião.

Vivendo na Corte, admirada por uns e perseguida por outros em função de sua beleza e saber, Juana foi aconselhada por seu confessor a ingressar em um Convento, o que faz em 1667 entrando para o Convento de São José, da Ordem das Carmelitas Descalças.  A rigidez ascética, no entanto, fê-la adoecer em poucos meses.Transferiu-se, então,  para a Ordem de São Jerônimo da Conceição, onde pode dispor do tempo que precisava para se dedicar às letras e às ciências.

Foi em São Jerônimo que adotou o nome religioso de Sóror Juana Inés de la Cruz. Bem instalada, cercada por livros e instrumentos diversos que utilizava em seus estudos, Juana escreveu poemas, ensaios, dramas e peças de teatro religiosas, além de compor canções natalinas e outras músicas sacras. Era visitada em sua cela no Convento por diversos intelectuais da América Espanhola e pelos que vinham da Espanha, encantados todos com sua beleza e seu profundo saber em todas as áreas do conhecimento. Com seus escritos e seu modo de ser, Juana representou um marco importante para a cultura da América Espanhola então dominada exclusivamente pelos homens, tendo recebido de seus contemporâneos os pseudônimos de “A Décima Musa” e “Fênix da América” e sendo reconhecida hoje em dia como a primeira feminista das Américas.

Em pleno auge de sua carreira literária, Juana recebeu do Bispo de Puebla, Dom Manuel Fernández de Santa Cruz, a incumbência de comentar, por escrito, o Segundo Sermão do Mandato, que o valoroso e erudito Padre Jesuíta Antonio Vieira, português com longa estada no Brasil, havia pregado na Capela Real da Corte Portuguesa em 1655, cerca de 40 anos antes. Dom Manuel, após receber os comentários de Juana, onde ela brilhantemente demonstrava erros teológicos do Padre Vieira, fê-los publicar com o nome de Carta Atenagórica, não sem antes tê-los precedido por um prefácio seu, em que assinava como Sóror Filotea de la Cruz. Nesse prefácio, Dom Manuel, ao tempo em que elogiava o trabalho crítico de Juana, lhe censurava de forma sutil a abrangência dos estudos, orientando-a a que se dedicasse somente às questões religiosas.

Àquela época, somente aos membros mais altos do Clero, todos homens, como hoje, era dado o direito de dissertar sobre questões teológicas. Desse modo, a publicação da Carta Atenagórica por certo provocou grande escândalo na comunidade religiosa.

Juana respondeu ao Bispo através de uma longa mensagem autobiográfica, onde defendeu, de forma eloqüente e brilhante, a necessidade de se estudar todos os ramos do conhecimento para melhor entender Deus e a criação, argumentando ainda ser essa uma necessidade não só dos homens mas igualmente das mulheres..

Pouco tempo depois da magistral resposta, no entanto, Sóror Juana colocou à venda os quatro mil volumes de sua biblioteca e seus inúmeros instrumentos científicos e musicais, dando uma imensa quinada em sua vida.

A razão de decisão tão radical permanece obscura. Após consultar diversas fontes que falam da vida de Sóror Juana, fica a dúvida entre duas hipóteses. Terá a resposta à “Sóror Filotea” sido um desabafo final da erudita religiosa, autora e cientista após ter resistido por longo tempo às investidas contrárias de censores invejosos ou terá sido ela o próprio estopim que terá feito explodir uma avalanche de críticas e pressões que ela não pode enfrentar dada a origem de onde vinham? Talvez nunca se saiba ao certo, no entanto, tenha sido qual tenha sido o motivo, o fato é que a surpreendente quinada se deu e o foco de nossa querida Joanna naquela memorável vida se voltou para a caridade.

Após vender seus pertences, Sóror Juana aplicou o produto obtido para fins caritativos, fazendo doações aos pobres e famintos. Quatro anos mais tarde, em 1695, quando uma epidemia de peste assolava a região, envolveu-se de corpo e alma no auxílio aos doentes. Socorrendo suas irmãs enfermas, acabou por se contagiar, desencarnando em 17 de abril, aos 44 anos de idade.

*

Vejamos o que nos é possível aprender da vida de Sóror Juana Inés de la Cruz.

O que nos chama a atenção, primeiramente, é a gana por saber que Juana demonstrou desde pequena. Não apenas lia ela as obras teológicas, antes estudando com afinco todos os ramos do conhecimento humano, argumentando com habilidade em sua resposta a “Sóror Filotea” (Dom Manuel, bispo de Puebla) sobre a necessidade de tais estudos.

Não nos limitemos, pois, a estudar obras espíritas de cunho religioso ou moral. Se aquela página de A Gênese ou de uma das obras de André Luiz nos parece difícil de entender é porque nos falta estudo científico. Se não encontramos na Codificação resposta exata a um problema que nos assalta no cotidiano, quem sabe nos falta conhecimento sobre sociologia, história ou filosofia?

Temos toda a eternidade para aprender. No entanto, Sóror Juana, com seu exemplo, nos mostrou que devemos agir como se tudo devêssemos aprender em uma só vida. Na senda da evolução, mesmo sabendo que temos toda a eternidade para aprender, devemos nos portar em cada vida como se ela fosse nossa única oportunidade de atingir a perfeição.

Se nossa condição evolutiva ou as circunstâncias por que passa a nossa vida tal não nos permitem, façamos, pelo menos, o que está a nosso alcance. É certo que cada um de nós teve um preparo diferente nesta vida, uns tendo estudado mais e outros menos. É certo que a constituição física do encéfalo de cada um de nós permite maior ou menor expressão de nossa capacidade mental.

Se, no entanto, aprendemos a ler, existem várias boas obras de divulgação disponíveis à espera de nossa iniciativa. Mãos à obra, portanto. Estudemos o máximo que pudermos no tempo que nos for possível.

Se sequer a ler nos foi possível aprender nessa vida, se nossos olhos são doentes e a leitura nos é dolorosa ou impossível, ainda assim o estudo não nos é vedado, havendo uma  infinidade  de casas espíritas com horários públicos dedicados a  estudos da Doutrina, pessoas  à nossa volta a quem apraz  uma conversa salutar e programas de rádio e boa qualidade, demandando tão somente o tempo de uma escolha criteriosa.

Podendo escolher entre um programa fútil na TV e um educativo, escolhamos o educativo. Podendo escolher entre uma boa leitura e uma conversa sobre trivialidades, escolhamos a boa leitura ou, por outra, dirijamos o colóquio para assuntos construtivos. Podendo escolher entre ficarmos em casa ruminando nossas deficiências e irmos para locais onde podemos aprender, tenhamos coragem e façamos a melhor escolha.

Como dissemos antes, se ainda não nos julgamos preparados para seguir o exemplo de Sóror Juana que, pelo menos, ensaiemos os primeiros passos nessa direção.

*

Sóror Juana ensinou-nos, também, a ter desapego aos bens terrenos e senso de prioridade. Ao decidir dedicar-se à caridade, vendeu todos os seus livros e pertences para aplicar o dinheiro no amparo aos necessitados. Possuía aqueles livros e instrumentos para se instruir e não como objeto de posse. Decidindo dedicar-se de corpo e alma à caridade, não titubeou em deles se desfazer.

O Espírito da Verdade, em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, Cap. VI, Item 5, nos conclama “Espíritas! amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo.”

Se nos instruirmos é o segundo mandamento, nos amarmos é o primeiro. E se, para exercermos o amor cristão, é necessário que abramos mão do impulso urgente de instrução, que assim o façamos.

Mais uma vez, lembremos que muitas iniciativas modestas podem ser inspiradas pela atitude de Sóror Juana. Digamos que uma pessoa que se encontra em perturbação nos peça emprestado um livro de que gostamos e não nos o devolva. Aceitemos isso com naturalidade, pensando que nas mãos dela aquele livro talvez seja mais útil que nas nossas. Se nosso maior desejo é estudar e nos aparece uma oportunidade de ajudar a quem necessita, saibamos interromper nosso estudo para sermos úteis ao nosso irmão. Se estivermos com tudo marcado para ir naquela palestra de um orador famoso e nos aparecer uma pessoa carente de nosso carinho, querendo conversar conosco ou apenas alugar nossos ouvidos para desabafar, tenhamos paciência e saibamos, como Sóror Juana, que, quando a caridade cristã se faz necessária, o estudo pode e deve ficar para depois. É claro que devemos ter nossos sentidos e razão atentos para não confundirmos reais necessidades com fingimento ou exagero de emoções. No entanto se não tivermos com diretriz que a caridade se impõe à instrução, corremos o risco de falhar quando mais se espera de nós.

Lembremos sempre que caridade não é apenas o ato de dar esmolas ou de se alistar como voluntário para ajudar em um asilo, em um orfanato ou em outra instituição do gênero. Não, caridade é algo para ser praticado a toda hora. Ter paciência para escutar e aconselhar a quem sabe menos que nós, quer assim se reconheça quer o ignore e se julgue mais sábio. Caridade é saber ouvir, dando atenção a todos, não importa a idade, o sexo, a raça ou a religião. É ter olhos para todos os seres à nossa volta, não fazendo mal a nenhum e a todos dirigindo um olhar de amor, de aceitação, reconhecendo sermos todos, sem exceção, filhos do mesmo Pai.

Junto a Francisco de Assis

Em uma das idas de Divaldo à Itália Joanna lhe revelou por palavras e emoções uma ligação fortíssima com Francisco de Assis (1182-1226), sem ter, contudo informado quem fora. Francisco de Assis é, também, um tema muito usado por Joanna em seus escritos, em palestras ou workshops, sempre através da abençoada mediunidade de Divaldo Franco, fato que reforça a impressão de que há entre os dois iluminados Espíritos um elo muito grande. Como as seguidoras de Francisco eram dirigidas por Clara de Assis (1193-1252), é certo que Joanna teria sido, naquela vida, uma irmã Clarissa bastante próxima ao pobrezinho de Assis ou, quem sabe, talvez, a própria Clara.

Joana Angélica de Jesus

A 11 de dezembro de 1761, isto é, há exatamente 242 anos, nasceu na cidade de Salvador Joana Angélica, filha de uma abastada família. Ingressou aos 21 anos no Convento da Lapa, naquela cidade. No ano de 1783, professou como irmã Joanna Angélica de Jesus, das Religiosas Reformadas de Nossa Senhora da Conceição. No Convento da Lapa foi vigária, exercendo diversos cargos burocráticos na comunidade, entre os anos de 1798 e 1801. Em 1809 foi conduzida ao posto de conselheira, retornando ao vicariato em 1811. Eleita Abadessa em 1814, permaneceu no cargo até 1817. Três anos após foi reeleita Abadessa, função que exercia por ocasião de sua morte.

Em agosto de 1820 ocorreu a chamada Revolução Liberal do Porto, assumindo o poder uma junta provisória, que convocou as Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes e forçou Dom João VI a retornar a Portugal. As Cortes reunidas em Lisboa dissolveram o reino do Brasil e forçaram Dom João a jurar uma nova Constituição, cancelando todos os cargos públicos que haviam sido criados no Brasil e fazendo antever aos brasileiros o retorno à situação de colônia, que eles não mais estavam dispostos a suportar.

Então, a insubordinação explodiu, com os brasileiros não aceitando as ordens dos oficiais portugueses, e estes se recusando a aceitar as ordens do príncipe-regente Dom Pedro, pois as Cortes de Lisboa já lhe haviam anulado esse cargo e exigido seu retorno a Portugal.

A população da Bahia dividiu-se e os conflitos entre brasileiros e portugueses aumentaram. Quando as Cortes Portuguesas nomearam o general português, Madeira de Melo para governar a província, a violência aumentou. A partir de 14 de fevereiro de 1822, Salvador se tornou um grande campo de batalha, com brasileiros e portugueses buscando controlar pontos estratégicos a fim de dominar a cidade.

Em 19 de fevereiro de 1822, os portugueses atacaram o Forte São Pedro, em Salvador. Na manhã seguinte, investiram contra o Convento da Lapa, suspeitando que lá eram escondidos brasileiros libertários. Postando-se, corajosamente, à entrada do Convento, com a cruz em suas mãos, a Abadessa Joana Angélica resistiu à investida dos homens armados, dizendo, segundo registra nossa História:

“Para trás, bárbaros. Respeitem a casa de Deus. Ninguém entrará no convento, a menos que passe por cima de meu cadáver!"

Uma baioneta atravessou, então, o peito da destemida Abadessa que, com seu gesto, não só dera tempo para que as irmãs e demais brasileiros que estavam no Convento escapassem, como fez-se alçada para as páginas de nossa História como símbolo de resistência à opressão e mártir da Independência. Era o dia 20 de fevereiro de 1822.

Após cinco dias de combate, os portugueses anunciaram o controle de Salvador, enquanto os brasileiros comandados por Manuel Pedro se refugiaram na região do Recôncavo Baiano.
 
A independência de Salvador do domínio português viria somente em 2 de julho de 1823 quando o general Madeira de Melo se rendeu depois de demorado cerco da cidade pelas tropas mandadas por Dom Pedro I, chefiadas pelo francês General Labatut e pelo inglês Almirante Cochrane.

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Temos uma interessante lição a comentar. Após o brilho da personalidade de Sóror Juana Inés de la Cruz, Joanna reencarnou com discrição. São poucas as referências disponíveis sobre a vida da heroína de nossa Independência. Nos livros de História, apenas o evento final de sua vida é contado. Somente agora em nosso século estudos têm sido feitos por pesquisadores da UFBA sobre os escritos de Joana Angélica durante o tempo em que esteve como escrivã do Convento da Lapa e, mais tarde, como Abadessa. Tais estudos, no entanto, ainda carecem de maior divulgação e por muito tempo talvez assim permaneçam.

Joanna nos ensinou que um Espírito evoluído não deve aspirar ao reconhecimento e à fama. Se Sóror Juana brilhou como estrela de primeira grandeza no panorama cultural do século XVII, tal não se deu porque buscava a fama ou o reconhecimento alheio. Brilhou por fora porque já era brilhante por dentro e, na busca do saber, não poupou esforços, a todos causando admiração pelos resultados que obtinha ao perseguir o seu intento. No entanto, ao perceber, pela reação negativa que sofreu, que a fama que havia adquirido não lhe convinha, de pronto a tudo renunciou, encolhendo-se aos olhos dos homens e agigantando-se aos olhos de Deus no serviço anônimo de amparo fraterno.

Quando voltou, no século seguinte, reencarnando na Bahia, elegeu desde cedo a discrição, sem, contudo, abandonar a busca pelo saber, a coragem, o amor aos seus irmãos e todos os demais atributos que, Espírito evoluído, já havia conquistado.

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Temos mais, sem dúvida, a aprender da vida de Joana Angélica. É algo, contudo, que faremos mais adiante.

De São Damião à Lapa: Um Interessante Paralelo

Uma ocasião, no ano de 1234, quando as tropas de Frederico II, Rei Alemão e Imperador do Sacro Império Romano, estavam devastando o vale do Espoleto, onde está situada a cidade de Assis, os soldados, preparando-se para entrar na cidade, começavam à noite a escalar as paredes do Convento de São Damião. Alertada pelas irmãs, Clara, como superiora do Convento, apesar de adoentada, levantou-se de sua cama, apanhou o ostensório na pequena capela ao lado de sua cela e foi até uma janela que havia em uma parede por onde os invasores já subiam por uma escada. Diz a tradição que, quando ela elevou o ostensório ao alto em oração, pedindo a Deus proteção para suas irmãs, já que ela, doente, não se sentia em condição de ajudar, os soldados teriam recuado estarrecidos e se posto em debandada para não mais voltar.

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Que curioso paralelo com o ataque ao Convento da Lapa, quase 600 anos mais tarde! Na Idade Média, a Abadessa Clara, sentindo o corpo fraco, elevou a vibração da alma a altura tão grande que colocou os atacantes para correr. Em nosso Brasil, prestes a se tornar independente, a Abadessa Joana Angélica, sentindo o corpo forte, coloca-se à frente dos soldados e enfrenta a morte do corpo com bravura e consciente da prática do bem.

Paralelos sempre nos colocam a pensar. Terá o personagem que Joanna animou na Idade Média sido a própria Clara?  Terá sido uma irmã tão próxima de Clara que, tendo assistido a tudo o que ocorreu em São Damião, teria tido a cena heróica marcada em seu psiquismo como grata lembrança a emular?

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Na defesa dos nossos semelhantes frente às injustiças e agressões, devemos ser destemidos e imbuídos de fé, na certeza de que estamos a seguir os ensinamentos de Jesus exemplificados por Clara de Assis e Joana Angélica. Se nossa condição física não nos garantir sucesso na empreitada, os bons Espíritos estarão lá, prontos e dispostos a ajudar.

Se nossa fé não é tão intensa a ponto de afugentar os agressores, se nossa coragem não é tão grande a ponto de colocarmos nosso corpo entre eles e aqueles a quem desejam ferir, que façamos, pelo menos, o melhor que nossas limitações nos permitem.

Fiquemos do lado de quem está do lado do bem, apoiemos as iniciativas nobres em defesa dos fracos e oprimidos.

Caso sejamos ainda menores e medrosos, se ainda não nos sentirmos sequer capazes de apoiar quem luta para proteger nossos irmãos das injustiças e agressões, que pelo menos não as cometamos nós, nem estejamos do lado de quem as pratica.

Se Joanna foi Clara de Assis, Por Que não o Revela?

Se observarmos com atenção, das poucas existências reveladas por Joanna, nenhum dos personagens que ela animou contém grande séqüito de devotos. Sóror Juana Inés de la Cruz é muito respeitada pelas suas obras e por sua postura de vida, mas aqueles que a admiram não têm por ela devoção religiosa. Os que admiram a Abadessa Joana Angélica vêm nela uma heroína de nossa Independência e não uma Santa. Joana de Cusa é distante no tempo e cultuada como santa pela Igreja Ortodoxa Grega, sendo pouco conhecida no Ocidente, onde seu nome não consta nas listas de santos católicos mais populares, mas apenas nas completas, onde aparece como Santa Joana. Clara de Assis, por outro lado, é uma santa com inúmeros devotos no Ocidente, além de ter uma Ordem religiosa que leva seu nome.

Se afirmasse ter sido Clara de Assis, Joanna estaria mexendo com os sentimentos de inúmeros devotos da santa, ensejando, por parte dos mais radicais, agressões que nenhum bem fariam ao movimento espírita ou a quem quer que fosse. Perturbar os outros e causar desgastes sem propósito são atitudes que Joanna nunca teve em sua longa missão junto a nós. Logo, por que haveria de fazê-lo neste caso? Não esperemos, pois, que Joanna nos diga ter sido Clara naquela distante existência. Lembremos que o próprio Mestre Jesus declinou de identificar-se com precisão por ocasião da Codificação Espírita, usando o epíteto de Espírito de Verdade. Com isso, queria Jesus evitar desgaste desnecessário ao processo de divulgação da Doutrina, pois os Católicos ficariam revoltados a extremos ainda maiores do que ficaram.

Nos ocorre, no entanto, que, se Joanna tivesse sido uma irmã próxima a Clara e não a própria, as justificativas que existem para a não revelação do nome que ela teve não persistiriam. E, apesar disso, Joanna tampouco informou qual dentre as irmãs Clarissas corresponderia à personalidade que animou naquela vida. Existem, portanto, a nosso ver, fortes evidências sugerindo que Clara de Assis tenha sido um dos personagens vivido por Joanna de Ângelis.

Em respeito à discrição de Joanna não devemos alardear nossas hipóteses, por mais sustentadas que elas nos pareçam. No âmbito deste estudo, entretanto, entendemos que tal questão não poderia deixar de merecer nossa atenção.

*

Fica-nos mais uma lição. De que vale uma revelação se ela trouxer perturbação a alguns e nenhum bem fizer aos demais? Jesus e os grandes mensageiros da humanidade causaram cizânia e contendas de toda natureza mas lograram, ao final de tais desencontros, legar uma mensagem de luz e paz à humanidade, mensagem esta que aos poucos se revela e vai sendo aceita pelo mundo. Por outro lado, que saldo positivo traria a revelação que estamos abordando? A nosso ver, nenhum. Ora, se o que temos a dizer nenhum bem traz e causa perturbação a alguém, por mais humilde e ignorado que seja esse alguém, é sempre melhor que nos calemos.

Na Equipe do Espírito de Verdade

Em sua obra Após a Tempestade, Joanna de Ângelis revelou ter participado da equipe do Espírito de Verdade quando da Codificação de nossa amada Doutrina.

Fiel discípula de primeira hora, não poderia Joanna omitir-se em tarefa não nobre capitaneada pelo seu amado Mestre Jesus.

Em seus primeiros contatos com Divaldo, Joanna declinou de informar seu nome, identificando-se como “Um Espírito Amigo”. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, há duas mensagens assinadas por “Um Espírito Amigo”, uma no Cap. IX, item 7 e outra no Cap. XVIII, itens 13 a 15. A identidade da designação sugere tratarem-se da mesma entidade.

São ambas mensagens inspiradas e altamente educativas. Vamos, no entanto, citar apenas uma parte da primeira, por tocar em um ponto por nós comentado mais acima. Trata-se do segundo parágrafo da mensagem intitulada A Paciência.

“Sede pacientes. A paciência também é uma caridade e deveis praticar a lei de caridade ensinada pelo Cristo, enviado de Deus. A caridade que consiste na esmola dada aos pobres é a mais fácil de todas. Outra há, porém, muito mais penosa e, conseguintemente, muito mais meritória: a de perdoarmos aos que Deus colocou em nosso caminho para serem instrumentos do nosso sofrer e para nos porem à prova a paciência.”

Lembremos, neste instante, das últimas palavras que Joana de Cusa dirigiu a seu algoz, quando perguntada por ele se o Cristo a havia somente ensinado a morrer:

- Não apenas a morrer, mas também a vos amar!...

*

Nota: Os autores divergem quanto ao ano do nascimento de Juana de Asbaje, o que compromete toda a cronologia posterior. Adotamos, neste trabalho, o ano de 1651, que é o que consta mais freqüentemente em suas biografias disponíveis na Web.

 
Bibliografia

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(Estudo apresentado originalmente na Subsede da Instituição Espírita Joanna de Ângelis no dia 11 de Dezembro de 2003, data do 242º Aniversário de nascimento de Sóror Joana Angélica de Jesus)