A Fuga para
o Egito



Paulo da Silva Neto Sobrinho

Out/2003. (revisado mar/2005)


A luz clareia aqueles que abrem seus olhos, mas as trevas se espessam para aqueles que querem fechá-los (SIMEON).


De todos os quatro evangelistas apenas Mateus fala sobre esse episódio (2,13-23), que teria acontecido com a família de Jesus, cujo teor transcrevemos:


“Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: ‘Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito e fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar’. José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito. Ali permaneceu até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que dissera o Senhor por meio do profeta: Eu chamei do Egito meu filho (Os 11,1)".

“Vendo, então, Herodes, que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito irado e mandou massacrar em Belém e nos seus arredores todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo exato que havia indagado dos magos. Cumpriu-se, então, o que fora dito pelo profeta Jeremias: Em Ramá se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer consolação, porque já não existem! (Jer 31,15)".

“Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito, e disse: ‘Levanta-te, toma o menino e sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino’. José levantou-se, tomou o menino e sua mãe e foi para a terra de Israel. Ao ouvir, porém, que Arquelau reinava na Judéia, em lugar de seu pai Herodes, não ousou ir para lá. Avisado divinamente em sonhos, retirou-se para a província da Galiléia e veio habitar na cidade de Nazaré para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas: Será chamado Nazareno”. (texto: Bíblia Sagrada, Ed. Ave Maria).

Por que será que somente Mateus cita tal acontecimento? Achamo-lo por demais importante, para que fosse esquecido pelos outros três evangelistas. Ou será que tal episódio de fato não teria ocorrido? Questionamentos que saltam à nossa mente, que livre das imposições dogmáticas das religiões tradicionais, já que aplicamos integralmente o: “examinai tudo, retende o que é bom”.

Segundo Werner Keller, em seu livro E a Bíblia tinha razão...(p. 366), “inexiste prova histórica ou arqueológica da ‘fuga para o Egito’”, e para não ficar só nisso, acrescenta: “tampouco existe prova da estada de Jesus em Nazaré”. Vê-se que por aí já nos deparamos com esses dois espinhosos problemas.

Alguns tradutores explicam essa narrativa como “um paralelo anterior na infância de Moisés, descrita pelas tradições rabínicas: segundo estas, quando o nascimento da criança foi anunciado, por meio de visões, ou por intermédio dos mágicos, o Faraó mandou chacinar as crianças recém-nascidas” (Bíblia de Jerusalém, pp. 1705-1706).


Com respeito à morte das crianças, conta-nos Keller: “Assim, hoje em dia usa-se de um cuidado bem maior do que outrora na apreciação da historicidade do infanticídio de Belém e, antes, tende-se a considerar o relato em questão como uma tentativa, condicionada à mentalidade contemporânea que visa realçar a importância de Jesus, pelos meios usados na época (para tanto, existe ainda uma certa autenticidade histórica, representada pelas atitudes efetivamente tomadas por Herodes em sua contenda com os fariseus, por causa do Messias. No entanto, há ainda mais. O relato do infanticídio de Belém estabeleceu um nexo entre Jesus e Moisés, pois também desse último a Bíblia conta como escapou, milagrosamente, de perseguições idênticas, sofridas por parte do faraó egípcio (Êxodo 1.15, 2.10)”. (E a Bíblia tinha razão..., p. 366)

Quando o anjo aparece a José dizendo para ele e sua família voltarem para Israel “porque morreram os que atentavam contra a vida do menino”, notamos que isso não faz sentido, pois no início a referência que se faz é a Herodes, então o correto seria então dizer morreu e não morreram.

O primeiro aviso em sonho, José o segue fielmente, quando do segundo, demonstra receio de voltar para Judéia, lugar indicado pelo anjo, isso não condiz com seu comportamento anterior, pois pensando em deixar Maria, um anjo lhe aparece em sonho avisando que o filho que ela levava na barriga é “obra do Espírito Santo”, ele ouve a voz do anjo e não abandona Maria. Apesar de relatado, esse fato não se coaduna com a cultura machista daquela época. E até a bem pouco tempo atrás se isso acontecesse aqui em nossa sociedade mesmo a mulher seria, com certeza, repudiada. E duvidamos que um homem, pela cultura daquela época, ou mesmo dessa de pouco tempo atrás, descobrindo que sua futura mulher tivesse ficado grávida e esse filho não fosse dele, ainda ficaria com ela.

Se José teve receio de ir para a Judéia porque estava sendo governada por um filho de Herodes, então, por que motivo foi para a Galiléia que também estava sendo governada por outro filho dele, no caso, Herodes Antipas? Não estaria correndo o mesmo risco?

Observamos que a primeira vez que Mateus cita o nome de alguma cidade relacionada a Jesus, diz de Belém da Judéia, local onde nasceu. Quando do retorno do Egito fala que José não quis voltar para a Judéia, do que podemos concluir que deveria ser especificamente a cidade de Belém. Cidade essa que, segundo se deduz das narrativas desse evangelista, teria sido o local onde Jesus viveu até que fosse para o Egito, só após a sua volta é que passou a morar em Nazaré. Entretanto, Lucas deixa muito claro que Maria e José viviam em Nazaré (1, 26; 2,4), foram a Belém para se alistarem no recenseamento, lá nasceu o menino e terminado os dias de purificação, o levaram ao Templo, em Jerusalém, para cumprirem as prescrições da Lei: “todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor” (Lv 5,7), após o que “voltaram à Galiléia, para Nazaré, sua cidade” (2,39), afirmando, um pouco mais à frente, que “foi a Nazaré, onde tinha crescido” (4,16).

É uma divergência para a qual não encontramos nenhuma explicação plausível, a não ser de que a razão poderia estar mesmo com Lucas, já que também Marcos dá a entender que Jesus, até o dia em que foi batizado por João Batista, morava em Nazaré (1,9) e que Mateus, seguindo o que acreditavam na época, procurou adaptar a pessoa de Jesus às profecias sobre o Messias, por isso teria modificado os acontecimentos para sustentar esse pensamento. Entretanto, conforme já informamos anteriormente, não existe prova arqueológica da estada de Jesus em Nazaré, permanecendo, portanto, essa dúvida.

Que os bibliólatras nos desculpem, mas, após esse estudo, a visão que passamos a ter dessa passagem não é coisa de que irão gostar, com certeza.

Primeiro, a fuga para o Egito é uma situação criada para tentar aplicar o que dizem ser uma profecia de Oséias. Entretanto, ao analisarmos a passagem citada (11,1), percebemos claramente que ela nem mesmo é uma profecia, trata-se, na verdade, de uma coisa já acontecida. Observar que o verbo chamar está no pretérito, portanto, fato do passado. E mais, a expressão “meu filho”, utilizada na passagem, se refere ao povo de Israel e não a uma pessoa em particular.

Segundo, a matança das crianças justificaria uma outra profecia, agora de Jeremias (31,15). Só que, como o acontecido com a anterior, essa passagem também não é uma profecia; está relacionada à tomada de Jerusalém por Nabucodonosor, rei da Babilônia, que leva o povo de Israel, que acabara de subjugar, cativo para o seu país, daí “o pranto de Raquel (sepultada em Ramá, perto de Belém) pelos filhos massacrados ou deportados pelos caldeus depois da destruição de Jerusalém em 596 a.C,...”. (Bíblia Sagrada, Edições Paulinas, pág. 1062).

Terceiro, a ida para Nazaré foi forjada para relacioná-la ao cumprimento de mais uma outra profecia que teria sido dita por vários profetas. Entretanto, a realidade é bem outra, pois não há nenhuma profecia em que, pelo menos, um só profeta tenha dito: “Será chamado Nazareno”; é pura invenção do autor bíblico.

Sabemos que, o que estamos dizendo poderá chocar alguns, entretanto, aos que, acima de tudo, buscam a verdade, será ouvido de bom grado. A verdade que entendemos, não necessita ser imposta a ferro e fogo, ao contrário, quando alguém quer, por todos os meios, fazer com que os outros aceitem a sua verdade, é porque com certeza mão está com ela, pois a verdade é algo tão cristalino que não necessita de nada mais a não ser que seja mostrada. Os sábios a sentirão, enquanto que os ignorantes a contestarão.

O que nos conforta é que não estamos sozinhos nessa busca. Recentemente, encontramos um artigo, onde parte do texto tem a ver com o que estamos tratando aqui, do qual transcrevemos:

“... E o segundo problema ainda mais grave, é que provavelmente Jesus não nasceu em Belém. ‘Há quase um consenso entre os historiadores de que Jesus nasceu em Nazaré’, diz o padre Jaldemir Vitório, do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus, em Belo Horizonte... Assim como o nascimento em Belém, a terrível execução de recém-nascidos ordenada por Herodes e a fuga de Maria e José para o Egito também teriam sido uma ‘licença poética do texto’, dessa vez para simbolizar que Jesus é o novo Moisés – já que essa narrativa é bem semelhante ao que se contava da vida do patriarca bíblico”. ‘Isso não foi uma criação maquiavélica para glorificar Jesus, era apenas o estilo literário da época’, diz Vitório”. (Revista Superinteressante, edição 183, “Quem foi Jesus”, por Rodrigo Cavalcante, p. 43).


Referências Bibliográficas

Bíblia de Jerusalém, São Paulo: Paulus, 2002.

Bíblia Sagrada, São Paulo: Paulinas, 1980.

Bíblia Sagrada, São Paulo: Ave Maria, 1989.

KELLER, W. E a Bíblia tinha razão..., São Paulo: Melhoramentos, 2000.

Revista Superinteressante, edição 183, São Paulo: Abril, dez/2002.

(Artigo reproduzido com autorização do autor)